Retiro Quaresmal 2021

Proposta

Uma experiência de oração e discernimento na vida cotidiana

Retiro Quaresmal – O que é? 

Mais uma vez chegamos até vocês com esta belíssima experiência de oração do Retiro Quaresmal. Esperamos que o texto apresentado seja um subsídio proveitoso para fazer a experiência do encontro pessoal com Deus durante o tempo litúrgico da Quaresma praticando a metodologia da Leitura Orante da Bíblia ou da Contemplação Inaciana sempre a partir do Evangelho do dia.

A Campanha da Fraternidade Ecumênica em 2021 será com o tema “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” e o lema “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef. 2.14). Neste contexto desafiador de polarização e agressões, demonstra, na prática, compromisso com o diálogo, um mandato inegociável do Evangelho. “O tema da Campanha pretende afirmar que as diferenças nos enriquecem ao invés de nos ameaçar. Apesar de parecer que a Fraternidade ficou fora de moda, acreditamos que o Batismo nos torna irmãos e irmãs”.

Essa experiência do encontro pessoal com Deus pode ser feita por todas as pessoas que estiverem verdadeiramente motivadas e que ponham os meios necessários para fazê-la. Posto que Deus deseja comunicar-se a todos seus filhos muito amados, para fazer a experiência do encontro amoroso com Ele na oração basta reservar um tempo propício e escolher um lugar apropriado para esse encontro em meio aos afazeres da vida diária. Para que produza mais frutos é aconselhável que as pessoas que fazem o Retiro Quaresmal sejam acompanhadas nesse seu itinerário espiritual por alguém que tenha um pouco mais de experiência na vida espiritual.

Os elementos básicos para fazer este Retiro Quaresmal são:

  1. Dedicar trinta (30) minutos à oração pessoal diária; rever esta oração durante alguns minutos;
  2. Participar do encontro semanal de partilha da oração, orientações e entrega do material da semana.

Como organizar-se para o Retiro Quaresmal?

O “coração” do Retiro Quaresmal é a dedicação de, pelo menos, trinta (30) minutos diários, para os exercícios sugeridos. É importante encontrar um tempo propício para estes exercícios diários de oração. Isso pede muita fidelidade. Aprendemos dos mestres de oração como é importante dar um tempo certo para a oração pessoal diária. Todos nós, hoje em dia, temos muito o que fazer. Depende de nós organizarmo-nos e convencermo-nos de que o tempo é a condição fundamental para a oração acontecer. Assim escreve São Francisco de Sales: “É muito importante dar atenção a Deus, durante meia hora diária; mas quando os afazeres são muitos, então é necessário destinar uma hora inteira para a oração pessoal”.

O melhor tempo para a oração diária é aquele em que estou mais descansado, menos disperso e agitado pelas preocupações do dia. Bom seria que fosse sempre à mesma hora. Se isto não for possível, faz-se um plano semanal. Deveríamos mesmo agendar este tempo.

Terminado o tempo da oração pessoal, sou convidado a usar mais algum tempo para rever como foi a oração, perguntando a mim mesmo: Saí-me bem? Por quê? Tive dificuldades, resistências? Recomenda-se ter uma espécie de diário espiritual onde se anota aquilo que aconteceu de importante e significativo durante a oração.

Roteiro para a oração diária

Esquema, como possível ajuda, para os trinta (30) minutos de oração diária.

  1. Escolher a hora e o lugar mais apropriados para a oração.
  2. Acolher a presença de Deus, saber que Ele me quer junto de si.
  3. Pedir a luz do Espírito Santo para que Ele me dirija e inspire.
  4. No início de sua oração pessoal, faça a oração preparatória, invocando o Espírito Santo.
  5. Dois modos de orar os textos indicados:

1º – CONTEMPLAÇÃO INACIANA (se o texto for um fato bíblico ou um mistério da vida de Cristo) Como proceder?

  • Recordo a história e use a imaginação para entrar na cena evangélica.
  • Procuro ver, contemplando cada pessoa da cena; dou um olhar demorado, sobretudo, na pessoa de Jesus (se for o caso). Olho sem querer explicar ou entender.
  • Tento ouvir, prestando atenção às palavras ditas ou implícitas: o que podem significar? E, se fossem dirigidas a mim…?
  • Observo o que fazem as pessoas da cena. Elas têm nome, história, sofrimentos, buscas, alegrias. Como reagem? Percebo os gestos, os sentimentos e atitudes, sobretudo, de Jesus.
  • Participo ativamente da cena, deixando-me envolver por ela. Além de ver, ouvir, tente apalpar e sentir o sabor das coisas que nela aparecem.
  • E, refletindo, tiro proveito de tudo o que ocorreu durante a oração.
  • Finalizo com uma despedida íntima de meu Deus, rezando um Pai Nosso. Saindo da oração, faço a minha revisão.

2º – LEITURA ORANTE (se for um texto de ensinamento da Escritura)

  • Leio o texto inteiro de uma vez; releio, devagar, versículo por versículo. Pergunto-me: O que diz o texto em si?
  • Paro onde Deus me fala interiormente; não tenho pressa, aprendo a saborear. Pergunto-me: O que o texto diz para mim?
  • Deus é Pai que nos ama muito mais do que poderíamos ser amados. Pergunto-me: O que o texto me faz dizer a Deus? Podem ser louvores, pedidos, ação de graças, adoração, silêncio…
  • Vou acolhendo o que vier à mente, o que tocar o meu coração: desejos, luzes, apelos, lembranças, inspirações.
  • Pergunto-me: O que o texto e tudo o que aconteceu nesta oração me fazem saborear e viver?
  • Finalizo a oração com uma despedida amorosa. Rezo um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
  • Saindo da oração, faço a minha revisão.

Revisão da Oração

Terminada a oração, revejo brevemente como me saí nela, perguntando-me:

  • que Palavra de Deus mais me tocou?
  • que sentimento predominou?
  • senti algum apelo, desejo, inspiração?
  • tive alguma dificuldade ou resistência?

Anoto o que me pareceu mais significativo na forma de uma breve oração de súplica ou de agradecimento.

N.B.: Este roteiro pode ser utilizado para a partilha da oração em grupo.

O esquema do Retiro Quaresmal 

Cada uma das seis semanas do Retiro Quaresmal contém seis exercícios de oração. O sétimo dia da semana destina-se para o que chamamos de repetição. Trata-se de escolher o exercício da semana que mais me tocou ou que foi mais difícil para mim. A repetição tem um papel muito importante nos Exercícios Espirituais. Não raras vezes acontece que somente durante a repetição se consegue uma experiência de oração mais profunda.

Acompanhamento no Retiro Quaresmal

Além das orientações dadas, seria desejável um acompanhamento mais direto. Há duas possibilidades:

  1. Recomenda-se às pessoas que desejam fazer o retiro, formarem grupos, sejam grupos já existentes na paróquia, sejam grupos a se constituírem. O objetivo é reunir-se, semanalmente, para a partilha das experiências. E neste tempo de pandemia a proposta é online, usando várias ferramentas disponíveis e gratuitas pela internet.
  2. Tanto quanto possível, os grupos sejam acompanhados por um orientador experiente nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio, auxiliado por outros acompanhantes idôneos que se disponham a prestar este serviço pastoral.

Obs: Os comentários bíblicos das semanas são extraídos do Diário Bíblico – Editora Ave Maria e outras fontes.

Preparação (De 17 a 20.02)

“Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto…” (Mt 6,17)

Quarta-feira de Cinzas – Dia 17.02

Mt 6, 1-6.16-18: “Quando orardes não façais como os hipócritas…”

Quaresma é tempo favorável para “ordenar a própria vida” na direção do sonho de Deus para toda a humanidade. Para que este processo de “ordenamento” aconteça, o tempo litúrgico quaresmal nos convida a “considerar” as nossas relações vitais: com Deus, com os outros, com o mundo e conosco mesmo.

No Evangelho fala-se das “práticas quaresmais” da oração, esmola e jejum, onde nossas relações são iluminadas e questionadas pelo modo de proceder de Jesus. Que sentido tem, para nossa cultura, estes três gestos que são propostos para uma vivência fecunda da Quaresma?

Em primeiro lugar, são três gestos que nos humanizam e tornam a vida mais leve e com sentido; eles condensam o sentido da vida cristã. A vida é um abrir-se aos demais (esmola), um mergulhar no mistério de Deus (oração) e ser capaz de ordenar e dirigir a própria existência (jejum).

É preciso criar espaço novo no coração e na mente, para que coisas novas aconteçam.

Vividos a partir da identificação com Jesus Cristo, os valores da oração, da esmola e do jejum esvaziam nosso “ego” para nos aproximar dos pobres e excluídos, encher-nos de compaixão e misericórdia, exercitar-nos na prática do bem e da bondade, acolher o outro com sinceridade, perdoar gratuitamente, cuidar com ternura e admiração tudo o que nos cerca, encantar-nos com o mistério da vida, deixar-nos envolver pela graça e permitir que o amor circule em nós e no mundo, gerando vida em abundância.

Quinta-feira – Dia 18.02

Lc 9, 22-25: “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo…”

De que adianta conquistar o mundo inteiro e perder a vida e a eternidade? Para seguir a Jesus é preciso renunciar a si mesmo e carregar a sua cruz.

“Com efeito, de que adianta a um homem ganhar o mundo inteiro, se se perde e se destrói a si mesmo?” (Lucas 9, 25).

A Palavra de Deus hoje nos convida a seguirmos Jesus. Para seguir o Senhor é preciso dois passos fundamentais: o primeiro é renunciarmos a nós mesmos, ter coragem e determinação para vencermos o maldito orgulho que temos em nosso coração, que nos enche de amor-próprio e, muitas vezes, só nos permite ver e querer o mundo à nossa maneira.

O orgulho nos cega a ponto de, muitas vezes, não enxergarmos o outro e de não entendermos que Deus é mais do que tudo, é mais do que nós e que dependemos d’Ele. O orgulho nos cega a ponto de não reconhecermos os nossos pecados e nos mantém cativos de modo a querermos ser o centro das atenções. O orgulho é um pecado maldito que nos mantém privados da graça de Deus.

Por isso quem quiser seguir a Jesus terá que renunciar a si mesmo. Muitas vezes, será preciso perder para poder ganhar, levar desvantagem em relação aos outros, mas vantagem em relação a Deus. Somente ao renunciarmos a nós mesmos e vencermos esse orgulho, que há em nós, seremos vitoriosos e teremos uma vida mais calma e mais confiante. Assim, as disputas e as comparações, que há em nosso meio, vão cessar.

Quem renuncia a si mesmo dá o segundo passo no seguimento a Jesus: carrega a sua cruz de cada dia e assim segue o Senhor aonde quer que Ele vá. Carregar a cruz de cada dia é carregar o peso dos nossos compromissos e responsabilidades, a responsabilidade de ser aquilo que assumimos ser no mundo. Se sou pai (mãe) preciso assumir a minha paternidade (maternidade) com força e abnegação e com tudo aquilo que ela exige.

Muitas vezes, a nossa cruz se torna pesada devido a doenças que não compreendemos ou a situações complicadas em casa ou no trabalho. Eu abraço a minha cruz quando assumo o que sou e as responsabilidades que tenho sem me desesperar, sem querer jogar essa cruz de lado e sem deixar de assumir que a graça de Deus é maior do que tudo.

Abraçar a cruz significa não colocar a busca dos bens materiais como motor que direciona a minha vida. De que adianta conquistar o mundo inteiro e ficar milionário e perder a minha vida e a eternidade? Cada coisa vivida com equilíbrio e sobriedade nos coloca mais perto do coração de Deus e não nos permite viver iludidos neste mundo.

Sexta-feira – Dia 19.02

Mt 9, 14-15: “Por que jejuamos nós e os fariseus, e os teus discípulos não?”

Paz e Bem em Cristo nosso Senhor. Aquele que em tudo nos fortalece e nos faz ver o verdadeiro sentido de tudo o que fazemos no nosso dia a dia.

No texto de hoje os discípulos de João Batista se aproximam de Jesus e o perguntam, porque nos dias do cumprimento ritual do Jejum judaico os seus discípulos não o faziam.

Vemos neste texto dois grandes grupos: o dos discípulos de João Baptista que estando preso permanecia, permanece firme nos seus propósitos e cumpre escrupulosamente os rituais; e o dos discípulos de Jesus. Todos são fiéis à doutrina dos seus fundadores. Só que pelo que parece neles ainda não se tinha operado a mudança, o abandono, o corte radical com a legislação farisaica. Enquanto que, Jesus vinha se empenhando em libertar seus próprios discípulos destas observâncias e de todo jugo da Lei antiga. Pois o Jejum que agrada a Deus não consiste, porventura, em repartir teu alimento com o faminto, em dar abrigo aos infelizes sem asilo, em vestir os maltrapilhos? Então sim, tua luz irromperia como aurora, e tuas feridas não tardariam a cicatrizar-se” (Is 58, 7-8). Então, a “luz” da boa consciência resplandecerá diante de Deus e dos homens, e “a ferida” do pecado será curada pelo verdadeiro amor para com Deus e os irmãos.

Os discípulos de Batista, admirados de que os de Jesus não observavam como eles o jejum, interrogaram um dia o Mestre a este respeito. E Jesus responde: “Podem, porventura, os convidados às núpcias afligirem-se enquanto o Esposo está com eles?” (Mt 9, 15). Para os hebreus era o jejum sinal de dor, de penitência, observado especialmente nas épocas de calamidades, para implorar a misericórdia de Deus, ou para exprimir arrependimento dos pecados. Mas agora que o Filho de Deus encontra-se na terra, celebrando suas núpcias com a humanidade, parece o jejum um contrassenso: aos discípulos de Jesus destina-se a alegria em vez do pranto. O próprio Cristo veio libertá-los do pecado; por isso a salvação deles não consiste tanto em penitências corporais, como em se abrirem totalmente à palavra e à graça do Salvador. Todavia não pretendeu Jesus, de modo algum, eliminar o jejum; ao contrário, ele mesmo já havia ensinado com que pureza de intenção deveriam praticá-lo, fugindo de toda espécie de ostentação com o fim de atrair os louvores alheios. “Quando jejuares, perfuma tua cabeça e lava teu rosto; assim não parecerá aos homens que jejuas… e teu Pai, que vê o que se passa em segredo, recompensar-te-á” (Mt 6, 17-18). E depois, aos discípulos do Batista, diz o Senhor: “Dias virão em que lhes será tirado o Esposo; então jejuarão” (Mt 9, 15).

Em Jesus somos convidados para as núpcias do Deus de amor. A referência à retirada do noivo e ao retorno ao jejum é uma interpretação tardia dos discípulos de Jesus que, como os discípulos de João, regrediram a algumas práticas do antigo judaísmo.

A quaresma é tempo de fortalecimento na implantação e consolidação da justiça no mundo e de reencontro com Jesus, comunicador de felicidade, alegria e vida.

Sábado – Repetição Inaciana – Dia 20.02

A cada sábado não vamos dar outro texto novo para rezar, mas você deverá fazer uma “Repetição Inaciana”. Veja o que significa:

O termo repetição não significa retomar ou “fazer de novo” um determinado exercício, mas repassar o processo da experiência vivida, com uma nova expectativa e de acordo com uma nova metodologia.

A repetição é muito mais um retorno aos sentimentos tidos na oração. Trata-se de um método de decantação progressiva, de concentração sobre aquilo que é essencial, iluminante, nutriente.

Santo Inácio sabe que a experiência é mestra e formadora, mas somente a experiência relida, rebatida, solidificada, saboreada… O que constrói a pessoa interiormente é a retomada permanente das experiências que viveu.

Através da repetição realiza-se o processo da interiorização (assimilação progressiva da Palavra). Este é o fator pedagógico mais característico dos Exercícios Inacianos.

A repetição ajuda a perceber as constantes (luzes, apelos…) e é através das constantes que se manifesta a ação e a vontade de Deus sobre nós.

“Ela permite entrar, pouco a pouco, no mundo dos espíritos e discerni-los intuitivamente. Na repetição, voltamos aos momentos especiais da graça, aos instantes divinos, nos quais Deus começou a revelar-nos a Sua Vontade (através das moções)” (Pe. Géza).

Repetir é reconhecer os dons recebidos, é agradecê-los, valorizá-los, assumi-los, penetrá-los e, sobretudo, configurar os sentimentos. É estar atento às “lições” de Deus, às “marcas” de Deus no coração.

A repetição busca integrar e unificar o desejo brotado nas meditações ou contemplações do dia, aprofundando-se nele e fazendo-o crescer. Ela constitui a ocasião indicada para um “trato” prolongado com o Senhor, que permite mergulhar mais nesta intimidade com o Senhor na busca do MAGIS… sempre é possível.

Passos da Oração

Encontre o seu lugar sagrado, que deve ser preparado antecipadamente, onde se sinta bem e tranquilo. Pacifique-se fazendo o exercício de respiração, procurando tomar consciência de que está com Deus, sinta-se sempre muito amado.

Dispor-se… Faça com devoção o sinal da cruz e a oração preparatória. “Meu Senhor e meu Deus, que todas as minhas intenções, ações e operações estejam ordenadas unicamente a serviço e louvor de sua divina Majestade e de nossos irmãos” (EE 46).

Graça: Faça o pedido da graça: de sentir intensa e profunda alegria por tanta glória e gozo de Cristo Nosso Senhor.

Recordar… Então, recorde cuidadosamente os tempos de oração da semana. Pode ser pela memória das experiências vividas na oração ou consultando as anotações feitas no Diário Espiritual.

Refletir… O que Deus gravou no seu coração? Por onde o Senhor passou? Que sinais Ele deixou? Como você se sente? Que apelos o Senhor te fez? Qual a sua resposta? Qual o seu ânimo para prosseguir nesse modo de rezar?

Colóquio… Converse com o Senhor como um amigo conversa com outro, sem resistência, sem reservas. Converse com o Senhor sobre os sentimentos que essas recordações te trazem…

Termine sua oração… Agradecendo o Senhor pela presença amorosa no mundo, na sua vida, pela experiência vivenciada, pelos frutos recebidos ao longo da semana e que terão impacto no seu modo de viver.

Reze um Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai, terminando sua oração amorosamente e se despedindo do Senhor, prometendo sempre voltar a este espaço sagrado da oração.

Revisão da oração: Anote o que foi mais importante na experiência da semana que se encerra (resumo dos frutos da semana).

Primeira semana (De 21 a 27.02)

“Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a Ele servirás…”

1º Domingo – Dia 21.02

Mc 1, 12-15: “E logo o Espírito o impeliu para o deserto.”

Talvez esperássemos que estas leituras do 1º Domingo da Quaresma nos recomendassem sacrifícios, jejuns, tristeza. Ao contrário, nos falam da bondade de Deus, que intervém em nossa vida, a fim de que, arrependidos de nossos pecados, renovemos nossos propósitos e iniciemos uma vida nova para sermos verdadeiramente felizes.

Sabemos que a revelação sobre a natureza de Deus se deu devagar. Hoje, após a vinda à terra da segunda pessoa da Santíssima Trindade, Jesus Cristo, soubemos que Deus é Amor. Mas, naqueles tempos antigos, atribuíam-se a Deus atitudes humanas. Assim, lê-se que “O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem na terra e teve o coração ferido de íntima dor. E disse: “Exterminarei da superfície da terra o homem que criei (…) porque eu me arrependo de tê-los criado!” (Gn 6, 6-7).

Jamais Deus teria pensado fazer tais coisas, porque ele nos ama e, portanto, não nos castiga. Quando pecamos, usando erradamente de nossa liberdade e, mesmo assim, Ele não desiste de nós, ama-nos e quer-nos de volta para junto de si. Deus nunca nos abandona. Pelo contrário, segue-nos, mesmo estando em caminhos errados, para corrigir-nos e renovar-nos. São Pedro também se refere às águas do dilúvio, comparando-as às águas do nosso Batismo. Escreveu ele: “Essa água prefigurava o batismo de agora, que vos salva também a vós, não pela purificação das impurezas do corpo, mas pela que consiste em pedir a Deus uma consciência boa, pela Ressurreição de Jesus Cristo”. Ao lermos o santo Evangelho, deparamo-nos com uma frase intrigante: “E logo o Espírito o impeliu para o deserto.”. Para quê? – perguntaríamos nós. Para ser tentado pelo demônio. Mas Deus exporia seu Filho ao mal? Não! O Pai nunca faria isso com seu Filho Amado. É que nem todas as provações são para o pecado. Como Jesus, somos conduzidos ao deserto de nossa vida com dores e alegrias. Nossa fé é submetida seguidamente à prova, como Ele também foi! Não tenhamos medo. O mesmo Espírito que conduziu Jesus está conosco!

Segunda-feira – Dia 22.02

Mt 16, 13-19: “No dizer do povo, quem é o Filho do Homem”.

Se Jesus nos fizesse a pergunta “E vós quem dizeis que eu sou?”, o que responderíamos? Se afirmássemos que é apenas mais um profeta, talvez se justificassem nossa indiferença para com seus ensinamentos, a preguiça em fazermos nossas orações; seria entendida a ânsia em juntar dinheiro cada vez mais; estaria explicado por que nos fechamos aos irmãos. Mas, se respondêssemos com São Pedro que Ele é o “Cristo, o Filho de Deus vivo”, seria difícil entender como, às vezes, passamos em frente às igrejas sem entrar pelo menos um minuto… Será que não podemos “perder” (como dizemos) um instante para cumprimentar Aquele que nos deu a vida e mantém-se “na palma de sua mão” continuamente? Se Jesus é nosso Mestre, como compreender nosso desleixo em abrir a Bíblia para lermos ao menos um pensamento seu? Por que será que qualquer pretexto nos leva a deixar em segundo lugar a celebração da Santa Missa, a fim de fortalecermos nossa alma com seu Corpo e Sangue? Que o Pai nos ilumine!

Terça-feira – Dia 23.02

Mt 6, 7-15: “Eis como deveis rezar.”

Nos evangelhos existem duas versões do Pai-nosso. Uma de Lucas, a mais breve e provavelmente a mais antiga. E a outra de Mateus, por sua vez apresenta a que era recitada em sua comunidade.

A oração, como as demais práticas religiosas, transformaram-se para os fariseus num motivo de ostentação e luzimento externo; deixaram de ser um modo do louvar a Deus e era somente um instrumento para alcançar honra e prestigio diante dos homens.

A oração do cristão deve estabelecer uma relação íntima com o Pai; entra no teu quarto, fecha a porta; num clima de abandono e confiança a Deus: o teu Pai recompensar-te-á. Os cristãos devem orar como Jesus orava. Esse estilo de oração está presente de uma forma condensada no Pai-nosso.

Quarta-feira – Dia 24.02

Lc 11, 29-32: “Nenhum sinal será dado a esta geração a não ser o sinal de Jonas.”

No Evangelho de hoje, encontramos Jesus usando ásperas palavras. Ele se dirigi ao povo que o ouve como a uma “perversa geração”. Mas por que tanta dureza? Porque eles não estão abertos para reconhecer o tempo de sua conversão às pregações de Jesus.

Jesus é o sinal que é, ao mesmo tempo, um apelo á conversão, muito mais urgente do que o apelo que o profeta Jonas dirigiu aos habitantes de Nínive, que eram pagãos.

Para cada um, a conversão tem a sua “hora” certa. É Jesus quem passa em nossas vidas em determinado momento.

Ele é o sinal, que é um apelo à conversão muito mais urgente do que a do profeta Jonas, dirigiu aos habitantes de Nínive, os quais eram pagãos.

As palavras de Jesus assumem um estilo profético e, ao mesmo tempo, um tom de julgamento.

Quinta-feira – Dia 25.02

Mt 7, 7-12: “Pedir. Buscar. Achar. Bater.”

Estes ensinamentos de Jesus pertencem a uma antiga tradição, que Mateus e Lucas apresentam em contextos diversos. Em Lucas servem para ilustrar como a oração do cristão deve ser perseverante e confiante, em Mateus, no entanto, pretende apoiar a decisão do discípulo que opta para servir a Deus.

Os três imperativos que iniciam a instrução: Pedir… Buscar… Bater… tinham um sentido religioso no judaísmo: expressavam a busca em Deus e a confiança em sua providência. Mateus quer infundir esta mesma confiança à sua comunidade, relembrando-lhes que a oração cristã expressa e torna possível um estilo de vida em absoluta dependência de Deus.

Sexta-feira – Dia 26.02

Mt 5, 20-26: “Se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus…”

Não é suficiente a justiça dos fariseus. Não basta evitar os homicídios, as mortes, as guerras. Jesus quer ir à raiz do mal, que se situa no mais profundo de nosso ser, e quer que nos convertamos ao nível dessa estrutura. O lugar privilegiado de Deus no mundo, após a encarnação, não é mais nos templos, mas na pessoa humana.

É preciso decidir-se pela fé e pela conversão. O perdão fraterno não pode ser adiado. Converter-se é seguir a Jesus no amor que ele tem por todos nós.

Hoje, sabemos, é inútil um culto a Deus se não cultuarmos o irmão, não amarmos o nosso próximo. E a reconciliação com o próximo tem precedência à adoração de Deus. Estamos assim perto de Deus na medida em que estamos perto de nosso próximo.

Sábado – Dia 27.02 – Repetição

A oração de cada sábado consiste no exercício chamado de repetição. Trata-se de aprofundar aquilo que rezei durante a semana. Santo Inácio diz: Não é o muito saber que satisfaz a pessoa, mas o sentir e saborear as coisas internamente [EE 2]. Por isso não é apresentada uma nova matéria de oração para este dia. Faço, pois, a oração, a partir do texto ou moção que mais me consolou ou que mais me desolou na semana que passou.

Segunda semana (De 28.02 a 06.03)

“Eis meu filho muito amado, em quem pus toda a minha afeição: ouvi-o…”

2º Domingo – Dia 28.02

Mc 9, 2-10: “E transfigurou-se diante deles.”

O 2º Domingo da Quaresma é tradicionalmente o domingo da transfiguração de Jesus, ou seja, o polo oposto ao primeiro domingo, dedicado às tentações de Jesus. Neste ano, lemos o relato presente no Evangelho segundo Marcos e tentamos evidenciar as particularidades dessa narração em relação à dos outros sinóticos.

Começamos contextualizando o relato desse evento, que é colocado durante o ministério de Jesus, após a reviravolta da confissão de Pedro sobre a identidade messiânica desse rabino e profeta que anunciava a vinda do reino de Deus (cf. Mc 8, 29).

Marcos enfatiza que, depois dessa declaração, sobre a qual Jesus impôs a obrigação do silêncio (cf. Mc 8, 30), ele começou (érxato) a ensinar com parrhesía (cf. Mc 8, 32) que o Filho do Homem devia sofrer muitas coisas, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes, pelos escribas, em seguida ser morto e, depois de três dias, ressuscitar (cf. Mc 8, 31).

Esse ensinamento é seguido por uma promessa solene: “Em verdade vos digo: alguns dos que estão aqui não experimentarão a morte sem ter visto o reino de Deus chegar com poder” (Mc 9, 1). Palavras enigmáticas, que certamente diziam respeito aos discípulos que ouviam Jesus, mas também dizem respeito a nós que, hoje, lemos o Evangelho.

Portanto, confissão de Pedro, profecia de Jesus sobre sua paixão, morte e ressurreição, e promessa da visão do reino de Deus são aquilo que precede em seis dias o evento da transfiguração. No dia da criação do homem (cf. Gn 1, 26-31), o homem Jesus é revelado pelo Pai como o Filho amado, aquele a quem deve se dirigir a escuta.

Por isso, Marcos assinala: “Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e os levou sozinhos a um lugar à parte sobre uma alta montanha”. Jesus toma e leva para o alto, com soberana e livre iniciativa, os três discípulos mais próximos dele, que fazem parte do grupo dos Doze, mas separados dos outros em algumas ocasiões, para serem testemunhas privilegiadas de experiências únicas: a ressurreição da filha de Jairo (cf. Mc 5, 37-43), a transfiguração e depois a des-figuração, a agonia no Getsêmani (cf. Mc 14, 32-42). Três situações vividas por Jesus “à parte”, em uma solidão compartilhada apenas com os três escolhidos para entrar na sua intimidade com o Pai.

Poder-se-ia dizer que Jesus os carrega sobre os ombros e os leva para o alto, a uma montanha, lugar da revelação de Deus e da sua teofania; montanha que a tradição antiga identificou no Tabor (Tab’or, “perto da luz”).

E aqui ocorre a revelação: “Jesus foi transfigurado (passivo divino) diante deles”. Uma ação de Deus muda a aparência visível de Jesus, de modo que ele seja visto de outra forma. Mateus tenta expressar essa mudança escrevendo que “seu rosto brilhou como o sol” (Mt 17, 2). Lucas atesta que “seu rosto mudou de aparência” (Lc 9, 29), enquanto Marcos alude com muita discrição à mudança ocorrida, especificando, porém, que “suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas”, de uma brancura que ninguém sobre a terra poderia dar às vestes, sendo esta uma ação que somente Deus pode fazer.

Segunda-feira – Dia 01.03

Lc 6, 36-38: “Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso.”

A chave que nos levará a compreender a moralidade cristã é entender que Deus deve ser nosso modelo. Devemos ser misericordiosos porque Deus é misericordioso; e perdoar porque Deus nos perdoa.

Eis uma doutrina pouco observada. Temos nossa justiça distributiva e Jesus nos diz que devemos ser como nosso Pai: sua justiça é conformar-se ao seu coração, ao seu amor.

Deus ama o pecador, o que lhe faz mal e seu amor o transforma, fazendo dele um santo. Assim, o que realmente desejamos pode se realizar; nossa vida é expressão de nossa fé, de nosso amor, de nossas aspirações. Deus não nos castiga, apenas faz cumprir as leis estabelecidas.

Tudo o que desejamos ao nosso próximo retorna a nós em dose superior. A medida de nossa ação é também o nosso coração. Conforme nossa medida, nossa fé, nosso amor, seremos gratificados.

Terça-feira – Dia 02.03

Mt 23, 1-12: “Hipocrisia e vaidade.”

Jesus não tolerava o modo de ser dos fariseus e sua explicação das Escrituras. Os escribas e os fariseus, recusando-se a entrar no reino messiânico e também impedindo a entrada do povo eleito, prepararam assim a extrema desgraça do abandono divino.

Esses dois grupos, fariseus e escribas, só querem aparecer, gostam de mostrar que são corretos, preferem os lugares de honra. A duplicidade, a hipocrisia, a inautenticidade eram insuportáveis para Cristo. Eles usavam a religião para impor sobre os outros seu domínio. O ritualismo obsessivo proporcionava-lhes uma sensação de segurança e de fidelidade a Deus que os tranquilizavam.

Os ensinamentos de Jesus nasciam do íntimo de seu ser e tinham a vibração de quem tem autoridade e de quem está integrado naquilo que faz.

Quarta-feira – Dia 03.03

Mt 20, 17-28: “Não sabíeis o que estais pedindo. Podeis beber o cálice que eu vou beber?”

Subindo com Jesus para Jerusalém, parece não termos aprendido muito até agora. A conversão ainda está distante. Tiago e João são apóstolos. Hoje lhes daríamos títulos pomposos que os deixariam contentes porque estavam a busca dos primeiros lugares. Chegaram a compreender que Jesus devia sofrer e morrer antes da ressurreição. Mas no céu, lá na glória, quem sabe poderiam ocupar os primeiros lugares ao lado de Jesus, certamente para poderem servir mais e melhor.

Quinta-feira – Dia 04.03

Lc 16, 19-31:”Pai Abraão, compadece-te de mim.”

A parábola do homem rico e do mendigo Lázaro é uma evocação de Jesus para fazer-nos lembrar e abrir os olhos para o grande ídolo dos ricos.

O rico não foi acusado de ter explorado o pobre, de ter se apossado de terras do pobre, de tê-lo enganado. Sua riqueza o distanciou do pobre e de Deus. O Reino de Deus pertence aos pobres.

Esta parábola nos faz refletir sobre dois pontos importantes. O primeiro, o homem pode se tornar incapaz de se abrir à proposta salvífica de Deus, no caso, o rico. O segundo, o Evangelho não privilegia nem condena uma condição econômica, seja de pobreza ou de riqueza, mas procura mostrar que a fé e a conversão devem amadurecer e tornar o mundo mais humano.

Se o homem rico tivesse sido gentil e fraterno, e tivesse ultrapassado seu egocentrismo para “descobrir” o “mundo” de Lázaro, teria se convertido a Deus e teria sido salvo.

Sexta-feira – Dia 05.03

Mt 21,33-43.45-46: “A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se pedra angular.”

A história narrada reflete muito bem a situação da Galileia, onde a propriedade da terra foi aos poucos sendo concentrada na mãos das classes poderosas que viviam nas cidades.

Os vinhateiros são os chefes do povo, que desprezaram os enviados de Deus em diversas ocasiões, apedrejando-os e matando-os. A sorte do Filho não foi outra. O ponto alto de toda esta dolorosa série de atropelos é contra o dono da vinha. Os vinhateiros se obstinam a não produzir os frutos no tempo oportuno.

Na versão de Mateus, a parábola conclui com uma interpretação aos ouvintes: o que fará o dono da vinha quando voltar? Esta pergunta encontrou a sua resposta em dois acontecimentos: a ressurreição de Jesus e o nascimento da Igreja cristã.

Sábado – Dia 06.03 – Repetição

A oração de cada sábado consiste no exercício chamado de repetição. Trata-se de aprofundar aquilo que rezei durante a semana. Santo Inácio diz: Não é o muito saber que satisfaz a pessoa, mas o sentir e saborear as coisas internamente [EE 2]. Por isso não é apresentada uma nova matéria de oração para este dia. Faço, pois, a oração, a partir do texto ou moção que mais me consolou ou que mais me desolou na semana que passou.

Terceira semana (De 07 a 13.03)

“Destruam esse templo, e em três dias eu o levantarei”.

3º Domingo – Dia 07.03

Jo 2, 13-25: “Tirai isto daqui e não façais da casa de meu Pai uma casa de negociantes.”

“Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei” (Jo 2,19). Eis a mensagem central do trecho do Evangelho que temos no 3° Domingo de Quaresma do ciclo B. Esse episódio narrado por todos os evangelistas é teológico, evidentemente, mas comporta uma dimensão histórica. Isso porque se sabe, hoje, que esse episódio de Jesus, expulsando os vendedores do templo, está na origem da prisão de Jesus e na causa da sua condenação. Mas porque essa versão de João em lugar da de Marcos, o evangelista do ano B? Simplesmente porque São João, que situa o evento no início da missão de Jesus, dá mais precisões importantes para a Igreja do 1° século, que não encontramos em Marcos e nos outros evangelistas, que situam o evento justamente antes da prisão de Jesus, da sua paixão e da sua morte.

Esse trecho, então, seja qual for o lugar em que os evangelistas se situam, retoma, sem dúvida, o gesto histórico de Jesus no momento de uma peregrinação a Jerusalém… um gesto que lhe custou a vida. Por outro lado, como é uma narrativa composta após a Páscoa, trata-se de uma releitura teológica de um evento histórico verdadeiro… Para nós que relemos essa narrativa, que devemos reter como mensagem?

Jesus, um revolucionário. Jesus, como profeta, se opôs abertamente ao poder religioso, civil e político do seu tempo, e o templo é a representação fiel desse tipo de poder: o templo de Jerusalém era, para os judeus, o lugar da presença de Deus; ele era gerenciado pelos sacerdotes e pelos avôs, e eles faziam um comércio um tanto lucrativo. Cada judeu devia ir em peregrinação ao Templo de Jerusalém, ao menos uma vez na vida, para oferecer sacrifícios a Deus. Havia mesas de cambistas, pois a moeda imperial era rechaçada. Os ricos obtinham bois, a classe média, ovelhas, e os pobres compravam pombas ou pombinhos, mas todos ofereciam sacrifícios a Deus. Que Jesus, em peregrinação com seus amigos, havia denunciado abertamente essa prática, é mais do que acreditável, e é sem dúvida o que permitiu às autoridades arrestá- lo e condená-lo. Então, podemos situar esse evento alguns dias antes da sua prisão.

Um anúncio da paixão de Jesus. São João faz alusões à paixão de Jesus nesta narrativa: fazendo um chicote de cordas para expulsar os vendedores do Templo (Jo 2,15), o evangelista anuncia o chicote com que Jesus, o novo templo de Deus, será flagelado ao momento da paixão (Jo 19,1). Tirando as moedas dos cambistas (Jo 2,15) e dos vendedores de ovelhas (Jo 2,14), podemos ver o anúncio que Jesus, ele mesmo será vítima de um tráfico absolutamente indigno da casa de Deus, pois ele, o verdadeiro templo, o cordeiro pascal, será vendido por 30 moedas, que Judas voltará para jogar no templo, sujando-o definitivamente (Mt 26,15; 27,5).

A idolatria e a exploração dos pobres. Como diz verdadeiramente o teólogo Charles Wachenheim, é um mesmo sopro libertador que inspira os preceitos do Decálogo (1ª leitura) e a narrativa joânica dos vendedores expulsos do templo. Nos dois casos, os crentes de ontem e de hoje são chamados a livrar-se do culto dos ídolos que ameaça, incessantemente, escravizá-los.

A Lei. Após ter liberado seu povo da escravidão do Egito, Deus lhes oferece a maneira de alcançar no dia a dia a sua liberdade. É desta forma que nós devemos compreender o Decálogo ou os Dez Mandamentos. Wackenheim escreve: “Portanto o bezerro de ouro não está longe. Preferindo um ídolo morto ao Deus vivo, o povo reproduz nos seus próprios rangos de servidão o que denuncia a Lei divina: desrespeito dos pais, morte, adultério, furto, falso testemunho, luxúria. O coração da Lei, o penhor de uma autêntica libertação, é o reconhecimento do Deus único, o amor de seu nome e a observância do sabbat”.

O Evangelho. Confundindo comércio e religião, os contemporâneos de Jesus transformam o templo em casa de tráfico (Jo 2,16). Jesus quer liberar esses homens de uma imagem perversa de Deus. Se ele pega especialmente os vendedores de pombas (Jo 2,16), é porque esses vendedores exploram descaradamente os fiéis mais pobres, e isso é inaceitável. Ainda hoje, nos acontece de deformar o rosto de Deus, quando o utilizamos para esmagar e explorar as pessoas carentes, para condenar ou para excluir os feridos da vida, os marginalizados. Wackenheim escreve: “O homem religioso tende a sacralizar livros, tradições, instituições, prédios, ritos e doutrinas, enquanto que na Bíblia os únicos sagrados são Deus e o próximo”.

O Corpo de Cristo. Não podemos encerrar Deus num templo de pedras e de tijolos. O único caminho até Deus, a sua verdadeira casa entre os homens, é seu Filho feito homem. Wackenheim acrescenta: “Jesus de Nazaré revela, ao mesmo tempo, a eminente dignidade de todo ser humano e a humildade de um Deus que, no encontro com todos os ídolos, se apaga no dom que ele faz de si próprio”. A pedido das autoridades judaicas para que Jesus lhes explicasse seu gesto: “Que sinal nos mostras para agires assim?” (Jo 2,18), Jesus responde: “Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei” (Jo 2,19). Jesus revira não somente as mesas, mas também a maneira de reencontrar Deus. Deus não está mais encerrado num templo de pedras, mesmo se fosse preciso 46 anos para construí-lo; o novo templo de Deus é o Cristo que levou três dias para levantar-se, para ressuscitar, e esse templo, hoje, são os cristãos de todos os tempos que são eles mesmos o Corpo de Cristo ressuscitado. Isso significa que o Cristo de São João dessacralizou os templos de pedra para sacralizar os templos de carne: os humanos que levam neles mesmos o Deus vivo. E, para estar mais seguro de ser bem entendido, o evangelista João o diz explicitamente: “Mas o Templo de que Jesus falava era o seu corpo” (Jo 2,21).

Escândalo para uns e loucura para outros. É evidente que a fé cristã repousa sobre um evento paradoxal e estratégico: a morte-ressurreição de Jesus; ainda mais porque se trata de uma morte por crucifixão: era a pena de morte infligida aos bandidos, aos assassinos e aos malfeitores. Então, é um escândalo para os judeus, diz são Paulo, e é pura loucura para os pagãos (1Co 1,23). É por isso que não dá para separar o Crucificado do Ressuscitado, pois o Cristo, o Messias, é poder de Deus e sabedoria de Deus por causa da Páscoa, por causa do Crucificado-Ressuscitado. O que quer dizer que são Paulo estaria escandalizado de ver, hoje, essa devoção popular que se desenvolveu após ele, ao redor de Jesus crucificado e ensanguentado, sem referência à Ressurreição. Sim, Jesus foi crucificado, mas ele está ressuscitado e as nossas cruzes devem significá-lo. Estou convencido de que os representantes de Cristo ressuscitado, com a cruz atrás, correspondem mais à teologia dos primeiros cristãos que contemplavam a cruz, no entanto à luz da Páscoa, do brilho da ressurreição.

Concluindo, estejamos cientes, hoje, na nossa caminhada de Quaresma, que somos templos de Deus, e, com esse título, valemos mais do que todas as igrejas e todas as catedrais do mundo…

Segunda-feira – Dia 08.03

Lc 4, 24-30: “Nenhum profeta é bem aceito na sua pátria”.

Como é difícil reconhecermos que pessoas mais próximas de nós podem nos ajudar a reconhecer que não estamos trilhando o bom caminho, que estamos nos desviando do que Deus deseja de nós. As vozes simples, as vozes do território, são as que melhor podem nos ajudar a encontrar os novos caminhos que a Igreja e a sociedade necessitam. Às vezes, não gostamos deles, especialmente quando nos mostram nossos erros e colocam nossas opções em xeque. Não podemos negar que os profetas nos incomodam, principalmente quando são pessoas próximas a nós.

Terça-feira – Dia 09.03

Mt 18, 21-35: “Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”

Tempo de Quaresma é tempo de arrependimento e de perdão. Deus perdoa. Estamos dispostos a perdoar setenta vezes sete vezes? É preciso perdoar sempre para poder ser perdoado. O perdão é tão importante que já se tornou uma prática terapêutica. Estresse, saúde mental, saúde cardíaca, sistema imunológico, tudo melhora, dizem os especialistas. De fato, tudo melhora quando estamos em paz conosco, com os outros e com Deus.

Quarta-feira – Dia 10.03

Mt 5, 17-19: “Aquele que guardar e ensinar os mandamentos será declarado grande no Reino dos Céus.”

O contexto vital dessas palavras, que Mateus coloca na boca de Jesus, é preciso procurá-lo nas diferentes opiniões que existiam entre os primeiros cristãos sobre a interpretação da Lei de Moisés. A questão que se colocava era: todos estavam obrigados a cumprir esses preceitos ou haviam sido abolidos por Jesus?

Essa passagem é de grande interesse do ponto de vista histórico-teológico. A expressão a Lei e os profetas era usada na época de Jesus para significar a Escritura (Antigo Testamento). A Lei (hebraico Torah) abrangia os cinco primeiros livros da Bíblia, também chamados de Pentateuco. Os profetas ocupavam não somente os livros proféticos, mas também os livros históricos que os judeus os classificam de profetas anteriores.

A expressão Eu, porém, lhes digo, vem interiorizar a Lei que será escrita não em tábuas de pedra, mas na carne, no coração dos homens. Deste modo, a nova lei discernirá o mal pela sua raiz, no coração, e não apenas quando se manifesta nas atitudes externas.

Quinta-feira – Dia 11.03

Lc 11, 14-23: Todo reino dividido contra si mesmo será destruído.

O poder de Jesus sobre os demônios vem de Deus, é sinal da sua presença, que procura criar novas relações entre os homens, construindo assim uma verdadeira sociedade.

Este relato nos ajuda a entender o mistério da fé. Para aqueles cujos corações estão corrompidos, a expulsão dos demônios é um sinal, um motivo suficiente para reconhecerem a Jesus e o seu futuro Reino.

O estar com Jesus ou contra Jesus não é assunto para rotular alguém como cristão ou não cristão. Estar com Cristo significa render-se ao ideal de justiça, paz e fraternidade. Quem não colabora com essa tarefa coloca obstáculo a missão. Jesus, ao expulsar o demônio, mostra que a libertação do endemoninhado é o sinal messiânico por excelência da chegada do Reino de Deus.

Sexta-feira – Dia 12.03

Mc 12, 28b-34: “Ouve, Israel! O Senhor nosso Deus é um só. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento, e com toda a tua força!”

Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo, esta é a síntese de todos os mandamentos. Quem ama de verdade cumpre toda a lei e não erra nas decisões que toma, porque tudo o que faz é feito por amor. Vinculando o amor a Deus com o amor ao próximo evitamos a falsificação da noção de Deus. Ninguém nunca viu a Deus, por isso dele temos apenas uma noção. O que podemos saber com mais consistência nos vem do Filho único que está no seio do Pai e no-lo deu a conhecer, ao se fazer homem e ter vindo morar entre nós. Vemos a humanidade de Jesus Cristo, não a sua divindade, e em sua humanidade vemos a toda a humanidade. Por isso, não podemos dizer que amamos a Deus a quem não vemos se não amamos o irmão a quem vemos. Se o amor ao próximo não faz parte do amor a Deus, nós nos tornamos fanáticos executores das ordens de um Deus que nossa imaginação criou. Amar o próximo como Jesus amou.

Sábado – Dia 13.03 – Repetição

A oração de cada sábado consiste no exercício chamado de repetição. Trata-se de aprofundar aquilo que rezei durante a semana. Santo Inácio diz: Não é o muito saber que satisfaz a pessoa, mas o sentir e saborear as coisas internamente [EE 2]. Por isso não é apresentada uma nova matéria de oração para este dia. Faço, pois, a oração, a partir do texto ou moção que mais me consolou ou que mais me desolou na semana que passou.

Quarta semana (De 14 a 20.03)

“É preciso que o Filho do Homem seja levantado. Assim, todo aquele que n’Ele acreditar, n’Ele terá a vida eterna.”

4º Domingo – Dia 14.03

Jo 3, 14-21: “…para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.”

Estamos na metade da Quaresma, no Domingo da Alegria… Uma parada diante da cruz, não somente do instrumento do suplício e da tortura, mas da cruz como instrumento de salvação… A cruz já transformada pela Páscoa… A cruz que fala do Amor louco de Deus e da sua vitória sobre as forças do mal… A cruz como uma árvore, uma árvore sobre a qual Jesus morre e sobre a qual renasce o primeiro nascido dentre os mortos. Uma árvore que dá fruto; a árvore da vida nova. Mas como pode ser esse domingo de alegria, sendo que São João afirma que a cruz é necessária para a salvação? “É preciso que o Filho do Homem seja levantado. Assim, todo aquele que nele acreditar, nele terá a vida eterna” (Jo 3,14-15). Mas o que fazer para experimentar a Alegria de ser salvo?

O trecho do evangelho de João que lemos hoje é a continuação do encontro com Nicodemos, onde Jesus tinha dito a esse notável juiz que, para entrar no Reino dos céus, seria preciso renascer de novo: “Eu garanto a você: se alguém não nasce do alto, não poderá ver o Reino de Deus” (Jo 3,3). E aí Nicodemos não entende o que Cristo lhe diz. O que é renascer? Esse novo nascimento? Ele diz a Jesus: “Como é que um homem pode nascer de novo, se já é velho? Poderá entrar outra vez no ventre de sua mãe e nascer?” (Jo 3,4). Jesus salienta: “Ninguém pode entrar no Reino de Deus, se não nasce da água e do Espírito” (Jo 3,5). E ele acrescenta: “Quem nasce da carne é carne, quem nasce do Espírito é espírito” (Jo 3,6).

No fundo, esse diálogo com Nicodemos nos leva a entender o evangelho de hoje. Renascer da água e do Espírito é nascer de Deus; ter necessidade dele. Então, a primeira atitude a ter para experimentar a Alegria da salvação é, primeiro, saber-se limitado e ter a humildade de reconhecer nossa necessidade de Deus. É o que o evangelista João chama de se aproximar da luz: “Mas, quem age conforme à verdade, se aproxima da luz” (Jo 3,21). Se nós cremos somente em nós mesmos, em nossas forças, em nossas capacidades e em nossas virtudes, sofremos de egocentrismo e de orgulho, e isso deveria bastar para nos julgar nós mesmos. Como Deus pode fazer alguma coisa por alguém que não precisa de nada: “Quem acredita nele, não está condenado; quem não acredita, já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho único de Deus” (Jo 3,18).

Não é esse mesmo orgulho que o autor do segundo livro das Crônicas detectou no povo de Israel e que o conduziu ao Exílio? “Javé, o Deus de seus antepassados, enviou seus mensageiros, uns após outros, pois queria poupar o seu povo e a sua habitação. Mas eles caçoavam dos mensageiros de Deus, levavam na brincadeira suas palavras, zombavam dos profetas” (2 Cr 36,15-16). Hoje ainda, será que nós vivemos frequentemente como se nós não precisássemos de nada? Pode ser que estejamos reagindo a más interpretações de Deus? Um Deus autoritário? Um Deus que julga? Que proíbe? Que condena? Em vez de um Deus que ama e que perdoa gratuitamente?

É por isso que nos falta humildemente olhar para a cruz; ela nos revela nossa fé e nossa falta de fé. Em outras palavras, levantar os olhos e olhar a cruz é ver a verdade sobre nós mesmos, sobre nossos limites e nossas fragilidades. Contemplá-la é ousar crer que para ela Cristo pode nos curar, nos salvar. Não por nada que São João faz o paralelo de Cristo na cruz como essa lenda da serpente de bronze levantada no deserto para que os israelitas que se faziam morder pela serpente pudessem recobrar a saúde olhando-a e contemplando-a. No fundo, é preciso olhar o mal em plena luz, para poder ficar curado.

Segunda-feira – Dia 15.03

Jo 4, 43-54: “Vai, teu filho está vivo.”

O ser humano está sempre à procura da fé. Um homem odiado pelos judeus por ser pagão, um membro da família real, por estar a serviço dos não menos odiados da casa real de Herodes dirige-se a Jesus e faz o pedido da cura do filho. O centro da narrativa está nos verbos “crer” e “viver”. Observa-se nesse relato um progresso na fé por parte do Pai, de uma confiança em que Jesus possa curar o seu filho, fé na Palavra de Jesus, fundada unicamente em sua autoridade.

O relato nos mostra que a confiança total em Jesus faz milagres. Ter fé significa aceitar a Jesus com todos os riscos que isso possa acarretar.

E há ainda outra característica, a fé nos abre para o diálogo e nos dá a certeza de que Jesus está no meio de nós, construindo conosco a história de nossas vidas.

O oficial crê na Palavra de Jesus. A sua fé é confirmada pelo milagre, anunciado a eles pelos servos que lhe vêm ao encontro. A fé desse oficial passa por toda a família.

Terça-feira – Dia 16.03

Jo 5, 1-16: “Levanta-te e anda.”

O doente ficou curado e liberto pela ação de Jesus. O aspecto importante dessa cura é que Jesus toma a iniciativa, diante da passividade desse enfermo.

Muitas vezes, a severa interpretação de costumes e leis nos faz perder a oportunidade de ficar livres dos males que nos afetam. A atitude de Jesus manifesta sua constante iniciativa de salvar o que estava perdido. Para Deus sempre há uma possibilidade de libertação. Aqueles que preferem ficar à margem perdem a possibilidade de um encontro salvador com Deus.

A libertação de Jesus consiste em uma total renovação de nosso ser à imagem do Criador. É por essa razão que ele não fica satisfeito apenas com a libertação do paralítico. Essa libertação é somente parte de uma salvação maior. Encontrando-o mais tarde no Templo, Jesus chamou-o para uma conversão dos pecados, a fim de que a libertação pudesse ser autêntica.

Quarta-feira – Dia 17.03

Jo 5, 17-30: “Tudo o que o Pai faz, o Filho também o faz.”

O texto de hoje narra as obras do Pai (Deus) e do Filho (Jesus Cristo). É a primeira parte da resposta de Jesus sobre a cura realizada em dia de sábado. A grande tese é esta: “Meu Pai continua agindo até agora, e eu ajo também”. A resposta de Jesus se dá mediante três temas: a dependência de Jesus ao Pai; a sua igualdade com o Pai; a apresentação da temática das coisas futuras.

A Lei de Deus é a expressão de sua vontade, que deve ser compreendida, acolhida e vivida. Cristo garante que tudo passa; só o amor, que é Deus, permanece!

A Lei é um instrumento pedagógico para ajudar o homem a viver o amor. Por isso, o respeito à Lei de Deus nos torna cidadãos de seu Reino.

A nossa vida é assim: se deixarmos Deus agir, ficaremos admirados das novidades em nosso mundo. Ao chamar Deus de Pai, Jesus revela estar unido a ele, realidade que também é nossa.

Quinta-feira – Dia 18.03

Jo 5, 31-47: “O testemunho a favor de Jesus.”

A narrativa do evangelho de hoje apresenta as testemunhas de Jesus. Diante do decreto da morte promulgado pelas autoridades judaicas, aparecem as testemunhas que depõem a favor de Jesus: João Batista, o Pai, a Escritura.

Jesus reconhece em João Batista uma testemunha da verdade. Ele afirma, porém, que o testemunho mais autorizado é dado por sua divindade.

Esse testemunho é o que o Pai dá ao Filho pelas obras que este realiza. O testemunho da verdade de Jesus é, antes de tudo, o próprio Jesus nas obras que realiza. São obras de poder e de amor, obras de sabedoria e de santidade que ultrapassam as possibilidades de um homem.

Por essas obras, o Pai dá testemunho de Jesus, isto é, designa-o a nossa confiança. Esse testemunho é o que Cristo dá a si mesmo. Testemunha por sua Palavra e reivindica por seus comportamentos uma autoridade divina.

Sexta-feira – Dia 19.03

Mt 1, 16.18-21.24a: “José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa…”

Nem sempre é fácil entender o que Deus quer de nós. Poderíamos dizer que a conversão pode ser entendida como deixando para trás o que queremos, aceitar os planos de Deus. Nem sempre é fácil dar esse passo, mas é verdade que assumir a vontade de Deus nos ajuda a descobrir que nele está o caminho da felicidade.

O sonho de José nos remete aos sonhos do Papa Francisco, que, em “Querida Amazônia”, nos mostra suas intuições para uma região sobre a qual o mundo tem outros planos. José poderia ter condicionado decisivamente a vida de Maria, provocando situações de morte, mas, em um sonho, ele entende que o caminho é outro, que Deus sempre opta por escolher a vida. Hoje, muitas grandes empresas e muitos governos querem instalar sistemas de morte na Amazônia, mas o Papa Francisco nos convida a sonhar com a vida que nasce de Deus. Ele sempre tem seus caminhos de realizar seus planos.

Sábado – Dia 20.03 – Repetição

A oração de cada sábado consiste no exercício chamado de repetição. Trata-se de aprofundar aquilo que rezei durante a semana. Santo Inácio diz: Não é o muito saber que satisfaz a pessoa, mas o sentir e saborear as coisas internamente [EE 2]. Por isso não é apresentada uma nova matéria de oração para este dia. Faço, pois, a oração, a partir do texto ou moção que mais me consolou ou que mais me desolou na semana que passou.

Quinta semana (De 21 a 27.03)

“Então, eles se aproximam de um dos seus discípulos, Filipe, e lhe pedem: “Queremos ver Jesus”.

5º Domingo – Dia 21.03

Jo 12, 20-33: “Quem ama sua vida irá perdê-la…”

Jesus, ao se aproximar a festa da Páscoa, entra em Jerusalém em meio aos gritos que o proclamam como Aquele que vem em nome do Senhor e Rei de Israel (cf. Jo 12, 12-14), mas esse seu sucesso junto ao povo desperta a constatação dos fariseus: “Todo mundo (ho kósmos) vai atrás de Jesus, segue-o!” (Jo 12, 19). Agora, a decisão de condenar Jesus à morte foi tomada, e ele sente que o círculo dos inimigos se estreita ao seu redor, e que aquela Páscoa será a sua “hora” tantas vezes anunciada. Por outro lado, a afirmação dos fariseus encontra uma clara ilustração no pedido de alguns dos presentes em Jerusalém para a festa: alguns gregos, isto é, pertencentes aos gentios, não circuncidados e, portanto, pagãos. Eles querem conhecer Jesus, porque ouviram falar dele como mestre de autoridade e profeta capaz de operar sinais.

Então, eles se aproximam de um dos seus discípulos, Filipe (proveniente de Betsaida da Galileia, cidade habitada por muitos gregos, assim como seu nome é grego), e lhe pedem: “Queremos ver Jesus”. Mas isso não era algo fácil, porque encontrar pagãos, impuros, por parte de um rabino, não estava de acordo com a Lei e não respeitava as regras de pureza. Filipe, hesitante, vai informar isso a André, o primeiro chamado ao seguimento (cf. Jo 1, 37-40); depois, juntos, os dois decidem apresentar a demanda a Jesus. E como ele responde? O quarto Evangelho não diz, mas testemunha algumas palavras decisivas, uma verdadeira profecia que Jesus faz sobre aquela hora, a hora da sua paixão e morte, revelada como glorificação.

Acima de tudo, Jesus diz que o pedido para o ver por parte dos pagãos é sinal e anúncio da hora que finalmente chegou, a hora em que o Filho do homem é glorificado por Deus. No início do Evangelho, em Caná, Jesus havia dito à sua mãe: “Minha hora ainda não chegou” (Jo 2, 4), e, em seguida, inúmeras outras vezes essa hora privilegiada é evocada como hora próxima, mas que ainda não chegou (cf. Jo 4, 21-23; 5, 25; 7, 30; 8, 20). Agora, diante desse pedido, Jesus compreende e, portanto, anuncia que sua morte será fecunda, fonte de vida inaudita: a sua glória será glória de Deus. Para expressar isso, Jesus recorre ao relato do grão de trigo que, para se multiplicar e dar fruto, deve cair na terra e depois apodrecer, morrer, caso contrário, permanece estéril e sozinho. Aceitando apodrecer e morrer, o grão multiplica sua vida e, portanto, atravessa a morte e chega à ressurreição.

Sim, parece paradoxal, mas – como Jesus esclarece – “quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conserva-la-á para a vida eterna”, porque o apego à vida é o que impede de pôr a própria vida a serviço dos outros. Para Jesus, a verdadeira morte não é a física, aquela que os homens podem provocar, mas é precisamente a recusa de gastar e dar vida pelos outros, o fechamento estéril sobre si mesmo; ao contrário, a verdadeira vida é o ápice de um processo de doação de si.

A história do grão de trigo é a história de Jesus, mas também a do seu servo, que, justamente seguindo Jesus, conhecerá a paixão e a morte assim como seu Senhor, mas também a ressurreição e a vida para sempre. Não é só Jesus que será glorificado pelo Pai, mas também o discípulo, o servo que, seguindo o seu Senhor, se torna seu amigo. A esse respeito, com grande fé, um Padre do deserto chegava a afirmar com ousadia: “Jesus e eu vivemos juntos!”

O que, então, Jesus promete aos pagãos para ver? Sua paixão, morte e ressurreição, seu abaixamento e sua glorificação, a cruz como revelação do amor vivido até o fim, até o extremo (cf. Jo 13, 1). A cada discípulo, proveniente de Israel ou dos gentios, no visível é dado ver o invisível; seguindo Jesus com perseverança, aonde quer que ele vá, é dado contemplar na sua morte ignominiosa a glória de quem dá a vida por amor.

De acordo com o quarto Evangelho, aqui é antecipada aquela convocação dos gentios, aquela reunião que acontecerá quando Jesus for elevado na cruz. Os profetas haviam anunciado a participação dos gentios na revelação feita a Israel, e esta hora está prestes a chegar, porque Jesus oferece a sua vida “para reunir os filhos de Deus que estavam dispersos” (Jo 11, 52).

Segunda-feira – Dia 22.03

Jo 8, 1-11: “Jesus disse à mulher adúltera: nem eu te condeno. Vai, e de agora em diante não peques mais.”

Os escribas e fariseus, na intenção de pegar Jesus em contradição sobre a sua pregação, apresentam-lhe uma mulher apanhada em adultério, que, segundo a lei de Moisés estava condenada a morte.

Na expectativa de poderem desmascarar Jesus no templo, diante da multidão, seus interlocutores lhe perguntaram: “Que dizes tu a isso?”. Jesus disse-lhe: “Quem de vós estiver sem pecado atire a primeira pedra”. A moral da história: ninguém teve coragem de atirar a primeira pedra. Ele, que podia, não o fez porque é a misericórdia.

O homem é um ser a se realizar, cada homem traz dentro de si um projeto de transformação de vida. Isto dar-se-á a cada dia, na medida em que a pessoa souber transformar-se para tal libertação.

Terça-feira – Dia 23.03

Jo 8, 21-30: “Aquele que me enviou está comigo.”

Aparece novamente a conversa baseada na origem e destino de Jesus. A repetição das perguntas e questões revela a incredulidade dos interlocutores. Jesus não pode ser julgado a partir dos critérios meramente humanos, porque ele é do alto, é Deus, pertence ao mundo de Deus.

Jesus atualiza, manifestando que a vida é uma realidade dinâmica. Isso pode incomodar quem está habituado a vê-la de forma estática. A velha atitude de fé em Deus é apresentada de maneira comprometedora, a ponto de nos lançar numa inquietação constante.

Jesus não é um mistério estático, mas aquele que projeta para o futuro. Fazer da fé um código fechado de regras, sem descobrir essa realidade evolutiva, é inversão da mensagem de Jesus e empecilho à felicidade. Aqui aparece claramente o confronto dos dois projetos: Jesus comprometido com o plano do Pai, que é a vida, e os seus adversários com o da morte.

Quarta-feira – Dia 24.03

Jo 8, 31-42: “Jesus disse: Se permanecerdes na minha Palavra, sereis meus verdadeiros discípulos.”

O desejo de ser livre está no íntimo de cada ser humano. O encontro e a aceitação da verdade tornam a pessoa livre. Jesus apresenta-se como a verdade que devolverá a cada um de nós a possibilidade de ser livre, que é condição dos filhos de Deus.

A adesão a Jesus não é feita somente de palavras. Ela exige prática, que pressupõe uma ruptura com o que não está a serviço da vida.

O quarto evangelista, o Evangelho do Jo, fala frequentemente dos judeus que acreditam em Jesus, da multidão. Muitos acreditam nele. Tratam-se de pessoas entusiasmadas com Jesus e com o movimento criado em torno de sua pessoa. Entusiasmo inicial sempre é fácil, mas permanecer nem sempre é fácil.

Quinta-feira – Dia 25.03

Lc 1, 26-38: “Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo.”

O Concílio Vaticano II apresenta Maria, Mãe de Jesus Cristo, como “protótipo e modelo para a Igreja”, e descreve-a como mulher humilde que escuta a Deus com confiança e alegria. Com essa mesma atitude temos de escutar a Deus na Igreja atual.

“Alegra-te”. É o que primeiro Maria escuta de Deus e o primeiro que temos de escutar também hoje. Entre nós falta alegria. Com frequência deixamo-nos contagiar pela tristeza de uma Igreja envelhecida e gasta. Já não é Jesus a Boa Nova? Não sentimos a alegria de ser os Seus seguidores? Quando falta a alegria, a fé perde o frescor, a cordialidade desaparece, a amizade entre os crentes arrefece. Tudo fica mais difícil. É urgente despertar a alegria nas nossas comunidades e recuperar a paz que Jesus nos deixou de herança.

“O Senhor esteja contigo”. Não é fácil a alegria na Igreja dos nossos dias. Só pode nascer da confiança em Deus. Não estamos órfãos. Vivemos invocando cada dia a um Deus Pai que nos acompanha, nos defende e procura sempre o bem de todo o ser humano.

Sexta-feira – Dia 26.03

Jo 10, 31-42: “Procuravam prender Jesus.”

Aqueles que não creem em Jesus tentam lapidá-lo porque ele teria blasfemado ao declarar-se Filho de Deus. O mistério de Cristo não pode ser interpretado nas estreitas medidas de nossa mentalidade, condicionada pelas diversas limitações de nossa realidade humana. É pela fé, atitude de diálogo e busca, que se pode obter o encontro com Cristo.

As autoridades judaicas rejeitam Jesus, as suas obras e o próprio Pai, que enviara o seu Filho. Diante disso, procuram prender Jesus outra vez, mas ele escapou de suas mãos.

Esse texto nos faz refletir sobre a “verdadeira liberdade”. Nem sempre somos capazes de suportar a verdade. De algum modo desejamos destruir aquilo que nos incomoda na tentação de ficar com a nossa verdade.

Sábado – Dia 27.03 – Repetição

A oração de cada sábado consiste no exercício chamado de repetição. Trata-se de aprofundar aquilo que rezei durante a semana. Santo Inácio diz: Não é o muito saber que satisfaz a pessoa, mas o sentir e saborear as coisas internamente [EE 2]. Por isso não é apresentada uma nova matéria de oração para este dia. Faço, pois, a oração, a partir do texto ou moção que mais me consolou ou que mais me desolou na semana que passou.

Semana Santa (De 28.03 a 04.04)

“Onde queres que preparemos a refeição da Páscoa?”

Domingo de Ramos – Dia 28.03

Mc 14, 1-15,47: “Onde queres que preparemos a refeição da Páscoa?”

O relato da paixão de Jesus, que a liturgia nos propõe neste domingo ao lado do da entrada festiva de Jesus em Jerusalém (Mc 11,1-10), ocupa um quinto de todo o Evangelho segundo Marcos. É o relato mais antigo contido nos Evangelhos, uma longa narração em que encontramos o eco das testemunhas, acima de tudo de Pedro, cujo nome retorna frequentemente, e depois dos outros discípulos. Todos, porém, no momento da prisão, fogem…

O relato é composto por duas partes: a primeira, que narra os eventos vividos por Jesus junto com sua comunidade até a captura (cf. Mc 14,1-42), e a segunda que apresenta o processo nas suas fases, a execução da condenação em cruz e o sepultamento do corpo de Jesus em um túmulo (cf. Mc 14,43-15,47).

Dada a amplitude desse trecho, não podemos fazer um comentário pontual; portanto, nos limitaremos a um olhar de conjunto que evidencia a boa notícia, o Evangelho contido no relato da paixão.

Essa narrativa põe à prova o nosso olhar de fé sobre Jesus: somos quase forçados a sofrer o escândalo e a loucura da cruz (cf. 1Co 1,23), somos colocados diante do resultado falimentar da vida de Jesus. Aquele que passou no meio do seu povo fazendo o bem (cf. At 10,38), cuidando dos doentes e às vezes curando-os, e forçando o diabo a obedecê-lo (cf. Mc 1,27) e a recuar; aquele que, como profeta poderoso em obras e palavras, “todos procuravam” (cf. Mc 1,37); aquele que atraiu a si as multidões, que o aclamaram como bem-aventurado e como aquele que vem no nome do Senhor (cf. Mc 11,9); aquele que conseguiu reunir ao seu redor uma comunidade itinerante de homens e mulheres que o reconhecia como Profeta e Messias; esse homem, Jesus de Nazaré, conhece um fim impensável e chega a uma morte falimentar.

Cada leitor atento do Evangelho, cada discípulo que seguiu Jesus desde seu batismo até o fim, não pode deixar de ficar profundamente abalado, perturbado com tal resultado…

Onde foi parar – alguém pode se perguntar – a força de Jesus, o poder com que ele libertava da doença e da morte aqueles que por elas estavam marcados? “A outros salvou, a si mesmo não pode salvar” (Mc 15,31) – seus adversários zombam dele…

Onde foi parar aquele carisma profético com o qual ele anunciava como já muito próximo ou, melhor, presente o Reino de Deus (cf. Mc 1,15)? Por que, na paixão, Jesus está reduzido ao silêncio e se deixa humilhar sem abrir a boca (cf. Is 53,7)?

Onde está aquela autoridade que lhe foi reconhecida tantas vezes por aqueles que o chamavam de mestre, o aclamavam como profeta, o invocavam como Messias e Salvador?

Todos aqueles que pareciam ser seus seguidores e simpatizantes desapareceram, e Jesus está sozinho, abandonado por todos, inerme e sem qualquer defesa.

Mas o enigma é ainda mais radical: onde está Deus durante a paixão de Jesus? Aquele Deus que parecia ser tão próximo dele e que ele chamava confidencialmente de “Abba”, isto é, “Papai querido”; aquele Deus que o havia declarado “Filho amado” no batismo (cf. Mc 1,11) e na transfiguração (cf. Mc 9,7); aquele Deus por quem Jesus havia colocado em jogo e consumido toda sua vida, onde está agora?

Não nos esqueçamos: a morte de cruz – como o apóstolo Paulo compreendeu – é a morte do amaldiçoado por Deus (cf. Dt 21,23; Gl 3,13), julgado como tal pela legítima autoridade religiosa de Israel, e ao mesmo tempo, é o suplício extremo infligido a quem é considerado como nocivo à sociedade humana. Jesus verdadeiramente morreu como um impostor, na ignomínia, pendurado entre céu e terra, por ter sido rejeitado por Deus e pelos homens…

Segunda-feira – Dia 29.03

Jo 12, 1-11: “…se afastavam e acreditavam em Jesus.”

Nosso Senhor amava Lázaro, Marta e Maria. Ele volta a Betânia seis dias antes da Páscoa: “Jesus visita de novo os Seus amigos de Betânia. Comove ver como o Senhor tem esta amizade, tão divina e tão humana, que se manifesta num convívio frequente”.

Cristo Jesus sempre foi muito bem recebido por Lázaro, Marta e Maria, em qualquer dia e a qualquer hora, com alegria e afeto. Havia grande respeito, atenção e caridade entre eles. E meu irmão, minha irmã qual tem sido o teu comportamento ante os que não têm por onde reclinar a cabeça? Assim como Lázaro, Marta e Maria recebiam o Senhor em sua casa com alegria e amor, abramos também o nosso coração para recebê-Lo.

São milhares aqueles que negam hospedagem para Cristo Jesus em seus corações, mas escancara-os para o mundo e suas vaidades; esses vivem com a alma cheia de vícios: a alma, sem a presença de seu Deus e dos anjos que nela jubilavam, cobre-se com as trevas do pecado, de sentimentos vergonhosos e de completa ignomínia. Ai da alma se lhe falta Cristo, que a cultive com diligência, para que possa germinar os bons frutos do Espírito! Deserta, coberta de espinhos e de abrolhos terminará por encontrar, em vez de frutos, a queimada. Ai da alma, se seu Senhor, o Cristo, nela não habitar! Abandonada, encher-se-á com o mau cheiro das paixões, virará moradia dos vícios” diz São Macário.

Era costume da hospitalidade do Oriente honrar um hóspede ilustre com água perfumada depois de se lavar. Mas mal se sentou Jesus, Maria tomou um frasco de alabastro que continha uma libra de perfume muito caro, de nardo puro. Aproximou-se por detrás do divã onde estava recostado Jesus e ungiu os seus pés e secou-lhes com os seus cabelos: Trata-se de Maria Madalena que, pela segunda vez, unge o corpo santíssimo do nosso divino Salvador.

O nardo era um perfume raríssimo, de grande valor, que ordinariamente se encerrava em pequenos vasos de boca estreita e apertada. Quebrar este vaso e derramar o conteúdo sobre a cabeça de alguém, era, entre os antigos, sinal de grande honra e distinção.

Maria ofereceu o melhor para Cristo Jesus. Ela não ofereceu um perfume barato, e sim, o melhor e o mais caro. E tu o que tens oferecido ao teu Senhor?

Terça-feira – Dia 30.03

Jo 13, 21-33.36-38: “Em verdade vos digo: um de vós me há de trair…”

Três anos de convivência. Judas não entendeu nada. Pelo que percebemos, embora São João diga que ele era ladrão, que não cuidava bem da caixa de despesas… o pensamento de Judas era mais político: esperava como tantos que Jesus com seu poder conduziria os judeus à liberdade de ser de novo uma pátria livre dos romanos. Digo isso porque Judas não ficou com o preço da traição (Mt 27, 3-7).

Todos somos pecadores. Somos frágeis. Todos os santos pediam a Deus a graça perseverança final. Não basta agora estar com Deus, devemos ficar sempre com Ele.

Pensemos um pouco sobre a traição entre amigos. Trair é enganar. Não confiar. Se continua convivendo, é fingimento para ter alguma vantagem.

Pode ser uma falha da pessoa, uma amizade superficial, mais para ter sempre alguém por perto. Esquece momentos importantes da vida do outro. É exigente: cobra quando o outro o deixa de lado. E se o amigo é importante, fica sendo um trunfo diante das pessoas: fulano é meu amigo!

Sentimos muito o que Judas fez com Jesus! Mas nós também em menor escala “brincamos” de amizade com o Mestre.

Pedro. Outra lição de vida. Devemos ter decisão no que queremos. E tentar cumprir o que prometemos.

O erro de Pedro não foi só não reconhecer a possibilidade de nem sempre seguir o Mestre, mas a forma quase orgulhosa de afirmar isso. Como se dissesse: os outros podem abandonar o Senhor, eu não!

E Jesus prevê o que vai acontecer e previne-o das negações que ele iria cometer…

Voltamos a lembrar: devemos sempre ter posição clara de que queremos seguir o Mestre. Mas contar mais com a força de Deus do que com nossas forças.

Jesus deseja muito que tenhamos definição em nossa vida. Que queiramos sempre seguir o que é melhor. Que acreditemos em seu amor sincero.

Mas com toda a humildade, contemos sempre com a ajuda de Deus.

Quarta-feira – Dia 31.03

Mt 26, 14-25: “E desde aquele instante, procurava uma ocasião para entregar Jesus.”

Na Quarta-Feira Santa, a Igreja nos propõe meditar o Evangelho de Jesus segundo Mt 26, 14-25. Essa leitura nos apresenta a traição de Judas. Ela nos descreve como Judas foi ter com os chefes dos sacerdotes e se oferece para trair Jesus. Aceita trinta moedas de prata como recompensa de sua traição. Por apenas trinta moedas de prata, um dos Doze entrega o Mestre! Por quantas moedas tens tu vendido Jesus? É chegada a hora das trevas!

Com um simples beijo Judas planeja vender o seu mestre. Por trinta moedas traça-se o poder financeiro, material e finito pela vida, dom de Deus. Uma verdadeira contradição, o dono de tudo é trocado pelo dinheiro. Ontem como hoje a opção pelo dinheiro e a rejeição da vida tem falado mais alto. Assim como Judas que passa a servir os poderosos que, para manterem seus privilégios e suas riquezas, desprezando a vida e promovendo a morte, nas nossas sociedades de hoje continua, Jesus, nos pobres, nos órfãos e nas viúvas, nos andarilhos, sem teto e excluídos, sendo vendido pelas riquezas passageiras. Digo isso porque a sociedade neoliberal globalizada tem esta característica, e o grande império deste mundo e seus aliados fazem a guerra e destroem a vida movidos pela ambição do dinheiro. Eles produzem uma ideologia e uma cultura de ambição e violência que passa a ser assimilada por muitos.

Voltemos para o nosso texto para meditar melhor o conteúdo da Semana Santa. Estamos hoje diante da agonia de Jesus no Monte das Oliveiras quando, diante do sofrimento que passaria nas próximas horas, Jesus, numa tristeza mortal, num gesto humano suplica ao Pai: “Meu Pai, se possível, que este cálice passe de mim” (Mt 26, 39). Mas imediatamente, como cordeiro que vai para o matadouro, diz: “Contudo, não seja feito como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26, 39). É a Vítima perfeita que se entrega, é o Cordeiro Pascal, é aquele que tira o pecado do mundo por amor! O Bom Pastor, aquele que dá a vida por suas ovelhas!

São Mateus nos revela hoje o modo como Jesus foi traído por um dos seus homens de confiança. O evangelho destaca que o gesto estava inserido num contexto maior do desígnio divino sobre o destino do Messias. Nem por isso sua responsabilidade foi menor. As palavras terríveis que recaíram sobre ele não deixam dúvida a este respeito: “Seria melhor que nunca tivesse nascido!” Só Judas age na contramão da vontade do Mestre, mesmo que sua decisão já estivesse no contexto da vontade de Deus.

A atitude cristã que devemos ter é a de corresponder com a graça divina, e não desprezá-la, traindo o amor de Cristo, como fez Judas. Peçamos ao Senhor que nos conceda uma fé firme e permanente a ponto de fazermos a diferença neste mundo cheio de ganância e uma busca constante de privilégios e, sobretudo, onde parecendo que não ainda o grito de Maquiavel “o fim justifica os meios” continua ditando normas. Tira-se a vida em troca de Poder, Prazer e Posse.

Jesus faz do dom de sua vida entregue, doada livremente por nós, a Nova e eterna Aliança com o Pai celeste a fim de que livres do pecado, vivamos agora na liberdade de filhos e filhas de Deus.

Quinta-feira – Dia 01.04

Jo 13, 1-15: “Senhor, queres lavar-me os pés!”

João não descreve o relato da última ceia como fazem os demais evangelistas, seu discurso revela o espírito eucarístico como lei do amor, caminho de maturidade espiritual num clima marcado pelo afeto.  

A páscoa é a grande festa do povo judeu, memória da saída do Egito e da opressão.

Antes desta festa, Jesus quer cear com seus amigos – discípulos, de modo solene, oportunidade reveladora da riqueza do Reino de Deus.

Jesus capta ter chegado sua ‘hora’, momento de “passar deste mundo para o Pai”!

Não é um trânsito fácil, porque Jesus tem vínculos estreitos de amor com “os seus”, e esse mesmo amor o leva a separar-se deles.

É o preço que terá que pagar por ter anunciado o Reino de Deus: Reino pleno da pureza do amor em gratuidade de entrega, de verdadeira alegria, e da paz como oferta de vida e justiça para todos.

Essas realidades que são desejadas por cada coração humano só podem ser verdadeiras se verificadas na vivência de uma prática através da conduta, que os poderes deste mundo ficam recalcitrantes em admitir.

O gesto profético de Jesus de levantar-se para lavar os pés de seus discípulos é expressão de acolhida e serviço, pedagogia de inversão de paradigmas estabelecidos pela hierarquia social. Ao inverter os termos, seu amor leva-o ao serviço mais humilde.

Pedro protesta, e isso não o detém, fazendo ver a importância do que está acontecendo.

Não excetua Judas, mas adverte que “nem todos estão limpos”, chance para uma tomada de consciência. A pergunta é: “compreendeis o que eu fiz?”

Ao lavar os pés dos discípulos, Jesus vive o ‘ministério do serviço entre os irmãos como Senhor e o Filho glorificado pelo Pai’ (Jo 13, 31). Filho identificado com o Pai de tal maneira, que conhecer a Jesus é conhecer o Pai (Jo 14, 9), glorificação da humanidade quando se tornar discípula de Jesus e produzir frutos de seguimento.

O Reino que anuncia é descrito como vida eterna, uma vida que começa na história, porque consiste em crescer no conhecimento de quem é o Pai e o Filho e na prática de sua única lei: a de nos amarmos uns aos outros como Jesus nos amou, dispostos a entregar a vida em favor dos irmãos, medida de amor que revela a vontade do Pai como Rei.

Jesus ensina na ceia que não há lei se não houver amor, essa é a única lei! O que parece estar em oposição, quando exercitado chega a um ponto em que lei e amor se fundem em uma única realidade. A autonomia da liberdade (amor) busca conhecer o desejo do Amado, o Outro, que pela lei oferece toda a expressão de Seu Amor na liberdade.

As palavras de Jesus que consagram o pão e o vinho em corpo e sangue são anúncio de algo que ocorrerá na sexta-feira de sua paixão e morte, e representam o compromisso de algo que se irá realizar, juramento e promessa de doação total.

A eucaristia é memória de todo o Mistério Pascal: promessa realizada na quinta-feira e que se concretiza na sexta-feira Santa, englobando a aceitação do Pai e dos irmãos, e revelação no domingo da ressurreição.

Sexta-feira – Dia 02.04

Jo 18, 1-19,42: “A quem buscais?… Sou eu”.

A Paixão é um processo. A Bíblia está cheia de alusões ao processo que Deus move contra os homens: é o tema do julgamento. Aqui, porém, assistimos ao processo que os homens movem contra Deus. Aliás, um duplo processo: dos judeus (que O conhecem) e dos pagãos (que não sabem onde se encontra a verdade). Os dois inimigos, que materializam na Escritura o imemorial conflito entre homem e homem, participam agora da condenação à morte do Justo. Primeira conivência, primeiro acordo, compartilhamento perverso na injustiça. Esta primeira cumplicidade reverterá depois, tornando-se aliança no amor entre judeus e não judeus, por obra do Espírito que Jesus “emite” no momento mesmo de sua morte: “paredoken to pneuma” (Jo 19,30). Mas, antes disso, eis que a justiça é escarnecida pelos homens! Jesus prossegue em seu caminho… Renuncia também Ele à justiça: os culpados não serão punidos, mas salvos. Tudo é subvertido pela Paixão de Cristo. E nós ficamos definitivamente isentos do regime da justiça, em virtude da qual poderíamos ser condenados. A Paixão é sentença de absolvição para todos os pecadores!

Da justiça ao amor

Não é possível inventariar tudo o que nos revela a Paixão segundo São João. No seio mesmo de sua humilhação, Jesus é nela Mestre e Senhor: no Jardim das Oliveiras, os guardas caem por terra ante a revelação de sua identidade (18,6); Ele não julga diretamente o guarda que o esbofeteia, mas convida-o a julgar-se a si próprio (18,23); avalia, pelo contrário, a falta de Pilatos, comparando-a à “de quem o entregou” (19,11). Eis como é exercido o julgamento cujo veredito é sempre de perdão: não se trata de ignorar a culpa, mas, sim, de absolvê-la! Desviar os olhos do que foi trespassado é passar ao largo do perdão.

Jesus é Senhor e até mesmo Rei (18,23-38). Ora, todo Rei exerce o poder. Qual é o poder deste crucificado? A atração irresistível da Verdade! Verdade que não vem juntar-se a “verdades”, ao que já existe no homem, mas que desvela o que nele, embora oculto, é capaz de torná-lo plenamente humano: o amor, pois amor e verdade se casam. Onipotência de um amor poderoso o bastante para renunciar ao poder e, amorosamente, ir ao encontro da fraqueza. Retornamos assim ao início do relato de São João: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (13,1).

Sábado Santo – Dia 03.04

Mc 16, 1-7: “Não tenhais medo!”

O relato evangélico que se lê na noite pascoal é de uma importância excepcional. Não só se anuncia a grande notícia de que o crucificado foi ressuscitado por Deus. Indica-nos, também, o caminho que temos de percorrer para vê-Lo e encontrarmo-nos com Ele.

Marcos fala de três mulheres admiráveis que não se podem esquecer de Jesus. São Maria Madalena, Maria de Santiago e Salomé. Em seus corações despertou-se um projeto absurdo que só pode nascer do seu amor apaixonado: “comprar aromas para ir ao sepulcro para embalsamar o Seu cadáver”.

O surpreendente é que, ao chegar ao sepulcro, observam que está aberto. Quando se aproximam mais, vem um “jovem vestido de branco” que as tranquiliza do seu sobressalto e lhes anuncia algo que jamais teriam suspeitado.

 “Procurais a Jesus de Nazaré, o crucificado?”. É um erro procurá-lo no mundo dos mortos. “Não está aqui”. Jesus não é um defunto mais. Não é o momento de chorá-lo e render-lhe homenagens. “Ressuscitou”. Está vivo para sempre. Nunca poderá ser encontrado no mundo dos mortos, do extinto, do acabado.

Mas, se não está no sepulcro, onde se pode ver? Onde podemos nos encontrar com Ele? O jovem recorda às mulheres algo que já lhes havia dito Jesus: “Ele vai à vossa frente na Galileia. Ali O vereis”. Para “ver” o ressuscitado tem que voltar à Galileia. Por quê? Para quê?

Ao ressuscitado não se pode “ver” sem fazer o seu próprio percurso. Para experimentá-lo cheio de vida no meio de nós, tem de se voltar ao ponto de partida e fazer a experiência do que foi essa vida que levou Jesus à crucifixão e ressurreição. Se não é assim, a “Ressurreição” será para nós uma doutrina sublime, um dogma sagrado, mas não experimentaremos Jesus vivo em nós.

A Galileia foi o cenário principal da Sua atuação. Ali O viram os seus discípulos curar, perdoar, libertar, acolher, despertar em todos uma esperança nova. Agora os Seus seguidores, temos de fazer o mesmo. Não estamos sós. O ressuscitado vai diante de nós. Iremos vê-Lo se caminhamos atrás dos Seus passos. O mais decisivo para experimentar o “ressuscitado” não é o estudo da teologia nem a celebração litúrgica, mas o seguimento fiel a Jesus.

Domingo de Páscoa – Dia 04.04

Jo 20, 1-9: “Tiraram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram”.

Na manhã da Páscoa, são as mulheres que vão para embalsamar o corpo de Jesus. No entanto, o evangelista Lucas nos diz: “Mas ao entrar, não encontraram o corpo do Senhor Jesus” (Lc 24,3). Utilizando a palavra “Senhor”, São Lucas nos leva a um outro nível: o da fé cristã. O cadáver de Jesus não tem mais importância; é o Senhor Ressuscitado que essas mulheres procuram. Isso quer dizer que o que precede a fé é a ausência, o vazio, a falta. É o que vivem essas mulheres que foram no cemitério para enterrar dignamente aquele que elas amaram, a fim de começar o luto. A ideia delas foi completamente mudada.

Em São João, Maria Madalena vai sozinha ao túmulo, de madrugada bem cedo: “bem de madrugada, quando ainda estava escuro” (Jo 20,1). E como ela se dá conta que o túmulo está vazio, porque a pedra foi retirada, ela corre para avisar a Pedro e ao discípulo que Jesus amava: “Tiraram do túmulo o Senhor, e não sabemos onde o colocaram” (Jo 20,2). Mais uma vez, utilizando a palavra “Senhor”, o evangelista nos conduz ao registro pascal, porque é só após a Páscoa que esse qualificativo foi aplicado a Jesus. Trata-se, então, do Cristo Ressuscitado, não reconhecido ainda por esta mulher que amava tanto a Jesus.

Quando se ama verdadeiramente, a ausência, o vazio, a falta fazem correr. Depois de Maria Madalena, Pedro e o discípulo que Jesus amava correm os dois juntos ao sepulcro; como o amor faz correr mais rapidamente, o discípulo que Jesus amava chega primeiro (Jn 20,4). Por respeito a Pedro, ele não entra (Jo 20,5). Pedro entra e vê o que Maria Madalena tinha constatado, mas ele fica somente surpreso. Quando o outro discípulo entra: “Ele viu e acreditou” (Jo 20,8). O que significa que não é o túmulo vazio o que faz acreditar, mas sim o Amor do discípulo pelo seu Senhor.

Mas o que acontece hoje? Procuramos o Senhor Jesus? Será que já o encontramos? Reconhecemo-lo? Um amigo me fez uma pergunta no Facebook: Que faria Cristo se ele se encarnasse hoje? Eu lhe respondi: Mas Cristo se encarna todos os dias no nosso mundo. Nosso novo Papa Francisco nos lembra disso sempre: ele está nos pobres, nos desprezados, nos explorados. Pessoalmente, eu o vejo na rua, nas pessoas dos dois sexos que se prostituem, nos jovens e nos idosos, nos drogados e nos alcoólatras para devolver-lhes a autoestima que eles perderam. Ele está nos doentes e nos moribundos, nas vítimas de violência de todo tipo e nos homossexuais para restabelecer a sua dignidade que lhes foi usurpada. Ele está também com alguns padres e bispos que seguem seu ensinamento evangélico. O Ressuscitado é primeiro alguém débil, frágil, vulnerável, que não gosta de poder e que se sente desconfortável nos palácios e nas grandes recepções. Um padre contava esta história: “Jesus caminha na calçada numa noite de Natal bem fria. Ele vê um sem-teto que está completamente gelado diante de uma igreja, onde se escutam cânticos glorificando pelo nascimento do Salvador. Ele se aproxima do sem-teto e lhe diz: Por que não vais te esquentar dentro da igreja? O sem-teto lhe responde: Senhor, eu não posso; eles não querem me deixar entrar. Jesus olha para ele com tristeza e lhe disse: Olha, não te preocupes, a mim também não, eles não querem me deixar entrar”.

Esta festa da Páscoa 2013, eu creio sinceramente que se trata de um novo Dia. Esse jesuíta argentino, que vem de ser eleito Papa e que se chama Francisco, encarna verdadeiramente o Ressuscitado. A sua luta em favor dos pobres e dos desprovidos, seu combate pela justiça atualiza o Cristo do Evangelho e justifica a razão de ser Igreja. Com ele, nós passamos de um discurso de condenação e de exclusão a uma Palavra de compaixão e de misericórdia. Com a humildade e a sinceridade que ele tem, ele nos faz passar da Sexta-Feira Santa ao Domingo de Páscoa. Ele não vai reavivar, talvez, o fervor religioso dos moradores de Quebec, mas ele poderá, sem dúvida, reconciliar a muitos com a Igreja Católica.