Retiro Quaresmal 2021

Proposta

Uma experiência de oração e discernimento na vida cotidiana

Retiro Quaresmal – O que é? 

Mais uma vez chegamos até vocês com esta belíssima experiência de oração do Retiro Quaresmal. Esperamos que o texto apresentado seja um subsídio proveitoso para fazer a experiência do encontro pessoal com Deus durante o tempo litúrgico da Quaresma praticando a metodologia da Leitura Orante da Bíblia ou da Contemplação Inaciana sempre a partir do Evangelho do dia.

A Campanha da Fraternidade Ecumênica em 2021 será com o tema “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” e o lema “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef. 2.14). Neste contexto desafiador de polarização e agressões, demonstra, na prática, compromisso com o diálogo, um mandato inegociável do Evangelho. “O tema da Campanha pretende afirmar que as diferenças nos enriquecem ao invés de nos ameaçar. Apesar de parecer que a Fraternidade ficou fora de moda, acreditamos que o Batismo nos torna irmãos e irmãs”.

Essa experiência do encontro pessoal com Deus pode ser feita por todas as pessoas que estiverem verdadeiramente motivadas e que ponham os meios necessários para fazê-la. Posto que Deus deseja comunicar-se a todos seus filhos muito amados, para fazer a experiência do encontro amoroso com Ele na oração basta reservar um tempo propício e escolher um lugar apropriado para esse encontro em meio aos afazeres da vida diária. Para que produza mais frutos é aconselhável que as pessoas que fazem o Retiro Quaresmal sejam acompanhadas nesse seu itinerário espiritual por alguém que tenha um pouco mais de experiência na vida espiritual.

Os elementos básicos para fazer este Retiro Quaresmal são:

  1. Dedicar trinta (30) minutos à oração pessoal diária; rever esta oração durante alguns minutos;
  2. Participar do encontro semanal de partilha da oração, orientações e entrega do material da semana.

Como organizar-se para o Retiro Quaresmal?

O “coração” do Retiro Quaresmal é a dedicação de, pelo menos, trinta (30) minutos diários, para os exercícios sugeridos. É importante encontrar um tempo propício para estes exercícios diários de oração. Isso pede muita fidelidade. Aprendemos dos mestres de oração como é importante dar um tempo certo para a oração pessoal diária. Todos nós, hoje em dia, temos muito o que fazer. Depende de nós organizarmo-nos e convencermo-nos de que o tempo é a condição fundamental para a oração acontecer. Assim escreve São Francisco de Sales: “É muito importante dar atenção a Deus, durante meia hora diária; mas quando os afazeres são muitos, então é necessário destinar uma hora inteira para a oração pessoal”.

O melhor tempo para a oração diária é aquele em que estou mais descansado, menos disperso e agitado pelas preocupações do dia. Bom seria que fosse sempre à mesma hora. Se isto não for possível, faz-se um plano semanal. Deveríamos mesmo agendar este tempo.

Terminado o tempo da oração pessoal, sou convidado a usar mais algum tempo para rever como foi a oração, perguntando a mim mesmo: Saí-me bem? Por quê? Tive dificuldades, resistências? Recomenda-se ter uma espécie de diário espiritual onde se anota aquilo que aconteceu de importante e significativo durante a oração.

Roteiro para a oração diária

Esquema, como possível ajuda, para os trinta (30) minutos de oração diária.

  1. Escolher a hora e o lugar mais apropriados para a oração.
  2. Acolher a presença de Deus, saber que Ele me quer junto de si.
  3. Pedir a luz do Espírito Santo para que Ele me dirija e inspire.
  4. No início de sua oração pessoal, faça a oração preparatória, invocando o Espírito Santo.
  5. Dois modos de orar os textos indicados:

1º – CONTEMPLAÇÃO INACIANA (se o texto for um fato bíblico ou um mistério da vida de Cristo) Como proceder?

  • Recordo a história e use a imaginação para entrar na cena evangélica.
  • Procuro ver, contemplando cada pessoa da cena; dou um olhar demorado, sobretudo, na pessoa de Jesus (se for o caso). Olho sem querer explicar ou entender.
  • Tento ouvir, prestando atenção às palavras ditas ou implícitas: o que podem significar? E, se fossem dirigidas a mim…?
  • Observo o que fazem as pessoas da cena. Elas têm nome, história, sofrimentos, buscas, alegrias. Como reagem? Percebo os gestos, os sentimentos e atitudes, sobretudo, de Jesus.
  • Participo ativamente da cena, deixando-me envolver por ela. Além de ver, ouvir, tente apalpar e sentir o sabor das coisas que nela aparecem.
  • E, refletindo, tiro proveito de tudo o que ocorreu durante a oração.
  • Finalizo com uma despedida íntima de meu Deus, rezando um Pai Nosso. Saindo da oração, faço a minha revisão.

2º – LEITURA ORANTE (se for um texto de ensinamento da Escritura)

  • Leio o texto inteiro de uma vez; releio, devagar, versículo por versículo. Pergunto-me: O que diz o texto em si?
  • Paro onde Deus me fala interiormente; não tenho pressa, aprendo a saborear. Pergunto-me: O que o texto diz para mim?
  • Deus é Pai que nos ama muito mais do que poderíamos ser amados. Pergunto-me: O que o texto me faz dizer a Deus? Podem ser louvores, pedidos, ação de graças, adoração, silêncio…
  • Vou acolhendo o que vier à mente, o que tocar o meu coração: desejos, luzes, apelos, lembranças, inspirações.
  • Pergunto-me: O que o texto e tudo o que aconteceu nesta oração me fazem saborear e viver?
  • Finalizo a oração com uma despedida amorosa. Rezo um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
  • Saindo da oração, faço a minha revisão.

Revisão da Oração

Terminada a oração, revejo brevemente como me saí nela, perguntando-me:

  • que Palavra de Deus mais me tocou?
  • que sentimento predominou?
  • senti algum apelo, desejo, inspiração?
  • tive alguma dificuldade ou resistência?

Anoto o que me pareceu mais significativo na forma de uma breve oração de súplica ou de agradecimento.

N.B.: Este roteiro pode ser utilizado para a partilha da oração em grupo.

O esquema do Retiro Quaresmal 

Cada uma das seis semanas do Retiro Quaresmal contém seis exercícios de oração. O sétimo dia da semana destina-se para o que chamamos de repetição. Trata-se de escolher o exercício da semana que mais me tocou ou que foi mais difícil para mim. A repetição tem um papel muito importante nos Exercícios Espirituais. Não raras vezes acontece que somente durante a repetição se consegue uma experiência de oração mais profunda.

Acompanhamento no Retiro Quaresmal

Além das orientações dadas, seria desejável um acompanhamento mais direto. Há duas possibilidades:

  1. Recomenda-se às pessoas que desejam fazer o retiro, formarem grupos, sejam grupos já existentes na paróquia, sejam grupos a se constituírem. O objetivo é reunir-se, semanalmente, para a partilha das experiências. E neste tempo de pandemia a proposta é online, usando várias ferramentas disponíveis e gratuitas pela internet.
  2. Tanto quanto possível, os grupos sejam acompanhados por um orientador experiente nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio, auxiliado por outros acompanhantes idôneos que se disponham a prestar este serviço pastoral.

Obs: Os comentários bíblicos das semanas são extraídos do Diário Bíblico – Editora Ave Maria e outras fontes.

Preparação (De 17 a 20.02)

“Quando jejuares, perfuma a cabeça e lava o rosto…” (Mt 6,17)

Quarta-feira de Cinzas – Dia 17.02

Mt 6, 1-6.16-18: “Quando orardes não façais como os hipócritas…”

Quaresma é tempo favorável para “ordenar a própria vida” na direção do sonho de Deus para toda a humanidade. Para que este processo de “ordenamento” aconteça, o tempo litúrgico quaresmal nos convida a “considerar” as nossas relações vitais: com Deus, com os outros, com o mundo e conosco mesmo.

No Evangelho fala-se das “práticas quaresmais” da oração, esmola e jejum, onde nossas relações são iluminadas e questionadas pelo modo de proceder de Jesus. Que sentido tem, para nossa cultura, estes três gestos que são propostos para uma vivência fecunda da Quaresma?

Em primeiro lugar, são três gestos que nos humanizam e tornam a vida mais leve e com sentido; eles condensam o sentido da vida cristã. A vida é um abrir-se aos demais (esmola), um mergulhar no mistério de Deus (oração) e ser capaz de ordenar e dirigir a própria existência (jejum).

É preciso criar espaço novo no coração e na mente, para que coisas novas aconteçam.

Vividos a partir da identificação com Jesus Cristo, os valores da oração, da esmola e do jejum esvaziam nosso “ego” para nos aproximar dos pobres e excluídos, encher-nos de compaixão e misericórdia, exercitar-nos na prática do bem e da bondade, acolher o outro com sinceridade, perdoar gratuitamente, cuidar com ternura e admiração tudo o que nos cerca, encantar-nos com o mistério da vida, deixar-nos envolver pela graça e permitir que o amor circule em nós e no mundo, gerando vida em abundância.

Quinta-feira – Dia 18.02

Lc 9, 22-25: “Se alguém quer vir após mim, renegue-se a si mesmo…”

De que adianta conquistar o mundo inteiro e perder a vida e a eternidade? Para seguir a Jesus é preciso renunciar a si mesmo e carregar a sua cruz.

“Com efeito, de que adianta a um homem ganhar o mundo inteiro, se se perde e se destrói a si mesmo?” (Lucas 9, 25).

A Palavra de Deus hoje nos convida a seguirmos Jesus. Para seguir o Senhor é preciso dois passos fundamentais: o primeiro é renunciarmos a nós mesmos, ter coragem e determinação para vencermos o maldito orgulho que temos em nosso coração, que nos enche de amor-próprio e, muitas vezes, só nos permite ver e querer o mundo à nossa maneira.

O orgulho nos cega a ponto de, muitas vezes, não enxergarmos o outro e de não entendermos que Deus é mais do que tudo, é mais do que nós e que dependemos d’Ele. O orgulho nos cega a ponto de não reconhecermos os nossos pecados e nos mantém cativos de modo a querermos ser o centro das atenções. O orgulho é um pecado maldito que nos mantém privados da graça de Deus.

Por isso quem quiser seguir a Jesus terá que renunciar a si mesmo. Muitas vezes, será preciso perder para poder ganhar, levar desvantagem em relação aos outros, mas vantagem em relação a Deus. Somente ao renunciarmos a nós mesmos e vencermos esse orgulho, que há em nós, seremos vitoriosos e teremos uma vida mais calma e mais confiante. Assim, as disputas e as comparações, que há em nosso meio, vão cessar.

Quem renuncia a si mesmo dá o segundo passo no seguimento a Jesus: carrega a sua cruz de cada dia e assim segue o Senhor aonde quer que Ele vá. Carregar a cruz de cada dia é carregar o peso dos nossos compromissos e responsabilidades, a responsabilidade de ser aquilo que assumimos ser no mundo. Se sou pai (mãe) preciso assumir a minha paternidade (maternidade) com força e abnegação e com tudo aquilo que ela exige.

Muitas vezes, a nossa cruz se torna pesada devido a doenças que não compreendemos ou a situações complicadas em casa ou no trabalho. Eu abraço a minha cruz quando assumo o que sou e as responsabilidades que tenho sem me desesperar, sem querer jogar essa cruz de lado e sem deixar de assumir que a graça de Deus é maior do que tudo.

Abraçar a cruz significa não colocar a busca dos bens materiais como motor que direciona a minha vida. De que adianta conquistar o mundo inteiro e ficar milionário e perder a minha vida e a eternidade? Cada coisa vivida com equilíbrio e sobriedade nos coloca mais perto do coração de Deus e não nos permite viver iludidos neste mundo.

Sexta-feira – Dia 19.02

Mt 9, 14-15: “Por que jejuamos nós e os fariseus, e os teus discípulos não?”

Paz e Bem em Cristo nosso Senhor. Aquele que em tudo nos fortalece e nos faz ver o verdadeiro sentido de tudo o que fazemos no nosso dia a dia.

No texto de hoje os discípulos de João Batista se aproximam de Jesus e o perguntam, porque nos dias do cumprimento ritual do Jejum judaico os seus discípulos não o faziam.

Vemos neste texto dois grandes grupos: o dos discípulos de João Baptista que estando preso permanecia, permanece firme nos seus propósitos e cumpre escrupulosamente os rituais; e o dos discípulos de Jesus. Todos são fiéis à doutrina dos seus fundadores. Só que pelo que parece neles ainda não se tinha operado a mudança, o abandono, o corte radical com a legislação farisaica. Enquanto que, Jesus vinha se empenhando em libertar seus próprios discípulos destas observâncias e de todo jugo da Lei antiga. Pois o Jejum que agrada a Deus não consiste, porventura, em repartir teu alimento com o faminto, em dar abrigo aos infelizes sem asilo, em vestir os maltrapilhos? Então sim, tua luz irromperia como aurora, e tuas feridas não tardariam a cicatrizar-se” (Is 58, 7-8). Então, a “luz” da boa consciência resplandecerá diante de Deus e dos homens, e “a ferida” do pecado será curada pelo verdadeiro amor para com Deus e os irmãos.

Os discípulos de Batista, admirados de que os de Jesus não observavam como eles o jejum, interrogaram um dia o Mestre a este respeito. E Jesus responde: “Podem, porventura, os convidados às núpcias afligirem-se enquanto o Esposo está com eles?” (Mt 9, 15). Para os hebreus era o jejum sinal de dor, de penitência, observado especialmente nas épocas de calamidades, para implorar a misericórdia de Deus, ou para exprimir arrependimento dos pecados. Mas agora que o Filho de Deus encontra-se na terra, celebrando suas núpcias com a humanidade, parece o jejum um contrassenso: aos discípulos de Jesus destina-se a alegria em vez do pranto. O próprio Cristo veio libertá-los do pecado; por isso a salvação deles não consiste tanto em penitências corporais, como em se abrirem totalmente à palavra e à graça do Salvador. Todavia não pretendeu Jesus, de modo algum, eliminar o jejum; ao contrário, ele mesmo já havia ensinado com que pureza de intenção deveriam praticá-lo, fugindo de toda espécie de ostentação com o fim de atrair os louvores alheios. “Quando jejuares, perfuma tua cabeça e lava teu rosto; assim não parecerá aos homens que jejuas… e teu Pai, que vê o que se passa em segredo, recompensar-te-á” (Mt 6, 17-18). E depois, aos discípulos do Batista, diz o Senhor: “Dias virão em que lhes será tirado o Esposo; então jejuarão” (Mt 9, 15).

Em Jesus somos convidados para as núpcias do Deus de amor. A referência à retirada do noivo e ao retorno ao jejum é uma interpretação tardia dos discípulos de Jesus que, como os discípulos de João, regrediram a algumas práticas do antigo judaísmo.

A quaresma é tempo de fortalecimento na implantação e consolidação da justiça no mundo e de reencontro com Jesus, comunicador de felicidade, alegria e vida.

Sábado – Repetição Inaciana – Dia 20.02

A cada sábado não vamos dar outro texto novo para rezar, mas você deverá fazer uma “Repetição Inaciana”. Veja o que significa:

O termo repetição não significa retomar ou “fazer de novo” um determinado exercício, mas repassar o processo da experiência vivida, com uma nova expectativa e de acordo com uma nova metodologia.

A repetição é muito mais um retorno aos sentimentos tidos na oração. Trata-se de um método de decantação progressiva, de concentração sobre aquilo que é essencial, iluminante, nutriente.

Santo Inácio sabe que a experiência é mestra e formadora, mas somente a experiência relida, rebatida, solidificada, saboreada… O que constrói a pessoa interiormente é a retomada permanente das experiências que viveu.

Através da repetição realiza-se o processo da interiorização (assimilação progressiva da Palavra). Este é o fator pedagógico mais característico dos Exercícios Inacianos.

A repetição ajuda a perceber as constantes (luzes, apelos…) e é através das constantes que se manifesta a ação e a vontade de Deus sobre nós.

“Ela permite entrar, pouco a pouco, no mundo dos espíritos e discerni-los intuitivamente. Na repetição, voltamos aos momentos especiais da graça, aos instantes divinos, nos quais Deus começou a revelar-nos a Sua Vontade (através das moções)” (Pe. Géza).

Repetir é reconhecer os dons recebidos, é agradecê-los, valorizá-los, assumi-los, penetrá-los e, sobretudo, configurar os sentimentos. É estar atento às “lições” de Deus, às “marcas” de Deus no coração.

A repetição busca integrar e unificar o desejo brotado nas meditações ou contemplações do dia, aprofundando-se nele e fazendo-o crescer. Ela constitui a ocasião indicada para um “trato” prolongado com o Senhor, que permite mergulhar mais nesta intimidade com o Senhor na busca do MAGIS… sempre é possível.

Passos da Oração

Encontre o seu lugar sagrado, que deve ser preparado antecipadamente, onde se sinta bem e tranquilo. Pacifique-se fazendo o exercício de respiração, procurando tomar consciência de que está com Deus, sinta-se sempre muito amado.

Dispor-se… Faça com devoção o sinal da cruz e a oração preparatória. “Meu Senhor e meu Deus, que todas as minhas intenções, ações e operações estejam ordenadas unicamente a serviço e louvor de sua divina Majestade e de nossos irmãos” (EE 46).

Graça: Faça o pedido da graça: de sentir intensa e profunda alegria por tanta glória e gozo de Cristo Nosso Senhor.

Recordar… Então, recorde cuidadosamente os tempos de oração da semana. Pode ser pela memória das experiências vividas na oração ou consultando as anotações feitas no Diário Espiritual.

Refletir… O que Deus gravou no seu coração? Por onde o Senhor passou? Que sinais Ele deixou? Como você se sente? Que apelos o Senhor te fez? Qual a sua resposta? Qual o seu ânimo para prosseguir nesse modo de rezar?

Colóquio… Converse com o Senhor como um amigo conversa com outro, sem resistência, sem reservas. Converse com o Senhor sobre os sentimentos que essas recordações te trazem…

Termine sua oração… Agradecendo o Senhor pela presença amorosa no mundo, na sua vida, pela experiência vivenciada, pelos frutos recebidos ao longo da semana e que terão impacto no seu modo de viver.

Reze um Pai Nosso, Ave Maria e Glória ao Pai, terminando sua oração amorosamente e se despedindo do Senhor, prometendo sempre voltar a este espaço sagrado da oração.

Revisão da oração: Anote o que foi mais importante na experiência da semana que se encerra (resumo dos frutos da semana).

 Primeira semana (De 21 a 27.02)

“Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a Ele servirás…”

1º Domingo – Dia 21.02

Mc 1, 12-15: “E logo o Espírito o impeliu para o deserto.”

Talvez esperássemos que estas leituras do 1º Domingo da Quaresma nos recomendassem sacrifícios, jejuns, tristeza. Ao contrário, nos falam da bondade de Deus, que intervém em nossa vida, a fim de que, arrependidos de nossos pecados, renovemos nossos propósitos e iniciemos uma vida nova para sermos verdadeiramente felizes.

Sabemos que a revelação sobre a natureza de Deus se deu devagar. Hoje, após a vinda à terra da segunda pessoa da Santíssima Trindade, Jesus Cristo, soubemos que Deus é Amor. Mas, naqueles tempos antigos, atribuíam-se a Deus atitudes humanas. Assim, lê-se que “O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem na terra e teve o coração ferido de íntima dor. E disse: “Exterminarei da superfície da terra o homem que criei (…) porque eu me arrependo de tê-los criado!” (Gn 6, 6-7).

Jamais Deus teria pensado fazer tais coisas, porque ele nos ama e, portanto, não nos castiga. Quando pecamos, usando erradamente de nossa liberdade e, mesmo assim, Ele não desiste de nós, ama-nos e quer-nos de volta para junto de si. Deus nunca nos abandona. Pelo contrário, segue-nos, mesmo estando em caminhos errados, para corrigir-nos e renovar-nos. São Pedro também se refere às águas do dilúvio, comparando-as às águas do nosso Batismo. Escreveu ele: “Essa água prefigurava o batismo de agora, que vos salva também a vós, não pela purificação das impurezas do corpo, mas pela que consiste em pedir a Deus uma consciência boa, pela Ressurreição de Jesus Cristo”. Ao lermos o santo Evangelho, deparamo-nos com uma frase intrigante: “E logo o Espírito o impeliu para o deserto.”. Para quê? – perguntaríamos nós. Para ser tentado pelo demônio. Mas Deus exporia seu Filho ao mal? Não! O Pai nunca faria isso com seu Filho Amado. É que nem todas as provações são para o pecado. Como Jesus, somos conduzidos ao deserto de nossa vida com dores e alegrias. Nossa fé é submetida seguidamente à prova, como Ele também foi! Não tenhamos medo. O mesmo Espírito que conduziu Jesus está conosco!

Segunda-feira – Dia 22.02

Mt 16, 13-19: “No dizer do povo, quem é o Filho do Homem”.

Se Jesus nos fizesse a pergunta “E vós quem dizeis que eu sou?”, o que responderíamos? Se afirmássemos que é apenas mais um profeta, talvez se justificassem nossa indiferença para com seus ensinamentos, a preguiça em fazermos nossas orações; seria entendida a ânsia em juntar dinheiro cada vez mais; estaria explicado por que nos fechamos aos irmãos. Mas, se respondêssemos com São Pedro que Ele é o “Cristo, o Filho de Deus vivo”, seria difícil entender como, às vezes, passamos em frente às igrejas sem entrar pelo menos um minuto… Será que não podemos “perder” (como dizemos) um instante para cumprimentar Aquele que nos deu a vida e mantém-se “na palma de sua mão” continuamente? Se Jesus é nosso Mestre, como compreender nosso desleixo em abrir a Bíblia para lermos ao menos um pensamento seu? Por que será que qualquer pretexto nos leva a deixar em segundo lugar a celebração da Santa Missa, a fim de fortalecermos nossa alma com seu Corpo e Sangue? Que o Pai nos ilumine!

Terça-feira – Dia 23.02

Mt 6, 7-15: “Eis como deveis rezar.”

Nos evangelhos existem duas versões do Pai-nosso. Uma de Lucas, a mais breve e provavelmente a mais antiga. E a outra de Mateus, por sua vez apresenta a que era recitada em sua comunidade.

A oração, como as demais práticas religiosas, transformaram-se para os fariseus num motivo de ostentação e luzimento externo; deixaram de ser um modo do louvar a Deus e era somente um instrumento para alcançar honra e prestigio diante dos homens.

A oração do cristão deve estabelecer uma relação íntima com o Pai; entra no teu quarto, fecha a porta; num clima de abandono e confiança a Deus: o teu Pai recompensar-te-á. Os cristãos devem orar como Jesus orava. Esse estilo de oração está presente de uma forma condensada no Pai-nosso.

Quarta-feira – Dia 24.02

Lc 11, 29-32: “Nenhum sinal será dado a esta geração a não ser o sinal de Jonas.”

No Evangelho de hoje, encontramos Jesus usando ásperas palavras. Ele se dirigi ao povo que o ouve como a uma “perversa geração”. Mas por que tanta dureza? Porque eles não estão abertos para reconhecer o tempo de sua conversão às pregações de Jesus.

Jesus é o sinal que é, ao mesmo tempo, um apelo á conversão, muito mais urgente do que o apelo que o profeta Jonas dirigiu aos habitantes de Nínive, que eram pagãos.

Para cada um, a conversão tem a sua “hora” certa. É Jesus quem passa em nossas vidas em determinado momento.

Ele é o sinal, que é um apelo à conversão muito mais urgente do que a do profeta Jonas, dirigiu aos habitantes de Nínive, os quais eram pagãos.

As palavras de Jesus assumem um estilo profético e, ao mesmo tempo, um tom de julgamento.

Quinta-feira – Dia 25.02

Mt 7, 7-12: “Pedir. Buscar. Achar. Bater.”

Estes ensinamentos de Jesus pertencem a uma antiga tradição, que Mateus e Lucas apresentam em contextos diversos. Em Lucas servem para ilustrar como a oração do cristão deve ser perseverante e confiante, em Mateus, no entanto, pretende apoiar a decisão do discípulo que opta para servir a Deus.

Os três imperativos que iniciam a instrução: Pedir… Buscar… Bater… tinham um sentido religioso no judaísmo: expressavam a busca em Deus e a confiança em sua providência. Mateus quer infundir esta mesma confiança à sua comunidade, relembrando-lhes que a oração cristã expressa e torna possível um estilo de vida em absoluta dependência de Deus.

Sexta-feira – Dia 26.02

Mt 5, 20-26: “Se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus…”

Não é suficiente a justiça dos fariseus. Não basta evitar os homicídios, as mortes, as guerras. Jesus quer ir à raiz do mal, que se situa no mais profundo de nosso ser, e quer que nos convertamos ao nível dessa estrutura. O lugar privilegiado de Deus no mundo, após a encarnação, não é mais nos templos, mas na pessoa humana.

É preciso decidir-se pela fé e pela conversão. O perdão fraterno não pode ser adiado. Converter-se é seguir a Jesus no amor que ele tem por todos nós.

Hoje, sabemos, é inútil um culto a Deus se não cultuarmos o irmão, não amarmos o nosso próximo. E a reconciliação com o próximo tem precedência à adoração de Deus. Estamos assim perto de Deus na medida em que estamos perto de nosso próximo.

Sábado – Dia 27.02 – Repetição

A oração de cada sábado consiste no exercício chamado de repetição. Trata-se de aprofundar aquilo que rezei durante a semana. Santo Inácio diz: Não é o muito saber que satisfaz a pessoa, mas o sentir e saborear as coisas internamente [EE 2]. Por isso não é apresentada uma nova matéria de oração para este dia. Faço, pois, a oração, a partir do texto ou moção que mais me consolou ou que mais me desolou na semana que passou.